CBDA e Ministério dão as costas para a base da natação brasileira

Entidades responsáveis pelos esportes aquáticos preferem dar mais atenção aos atletas de alto nível (crédito: Victor Caivano)

Não é de hoje que a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) recebe críticas sobre o direcionamento do seu investimento. O maior nome da natação brasileira da atualidade, César Cielo, já criticava a entidade em 2008 sobre a falta de atenção com a base. Números da CBDA, publicados no Diário Oficial da União, em fevereiro deste ano, mostram que o descontentamento tem procedência. Dos R$ 28 milhões de receita da CBDA, recebidos no ano passado, R$ 15,8 milhões foram aplicados em projetos de natação, polo aquático, águas abertas, nado sincronizado e saltos ornamentais. O valor é proveniente de patrocínios (R$ 23,4 milhões) e da Lei Piva (R$ 3,7 milhões). Do valor total, a natação recebeu apenas R$ 7,5 milhões, dando motivo para as críticas que se estendem a nadadores, treinadores e especialistas no assunto.

“Há mais de seis anos a CBDA vem se preocupando muito com a elite da natação – medalhas olímpicas e de campeonato mundial – em detrimento de um conceito que para mim é a base de uma entidade desse porte: traçar metas de longo prazo, planejar e gerenciar os esportes aquáticos em nível nacional. O nível técnico elevado da natação brasileira está nas braçadas de poucas dezenas de atletas que compõem a seleção brasileira absoluta e que receberam nos últimos três anos um grande investimento financeiro”, alerta Julian Romero, jornalista da Swim It Up, publicação especializada no assunto.

“Desde 2000, quando a CBDA lançou o Plano Brasil 2000, os projetos são todos lindos e maravilhosos no papel, mas nunca conseguem executar porque falta pessoal, e, às vezes, vontade desse pessoal. O poder executivo é muito centralizado na CBDA e o que parece sempre importar mais é a visibilidade que uma medalha dá do que dizer que existem 400 ou 500 equipes de natação filiadas totalizando 50 mil atletas”, comenta Romero, mostrando o foco da CBDA em valorizar os grandes e esquecer os pequenos.

A mentalidade clubística continua imperando, ao contrário de países de grande tradição na modalidade, onde a estrutura é bastante distinta. Minas Tênis Clube e Pinheiros, dois dos maiores formadores de atletas do país, precisam de recursos oriundos da Lei de Incentivo ao Esporte para seus projetos, deixando de receber importante atenção da entidade que deveria priorizar tais instituições.

A reportagem de O TEMPO procurou César Cielo, a CBDA e o Ministério do assunto para falar sobre o assunto e obter dados oficiais. No entanto, nenhuma das três fontes procuradas se manifestaram. Enquanto Cielo afirmou ‘não ter agenda’, CBDA e Ministério preferiram ignorar o email com as perguntas e questionamentos.

 

Cala-boca permanente

As críticas aparecem, mas não dos envolvidos diretamente. O medo de represália é grande e ainda existe. “O que não dá para entender é que a natação hoje depende completamente destes atletas, mas a grande maioria deles temem a CBDA, por poderem ficar sem o precioso patrocínio. Mesmo vendo que existem coisas erradas acontecendo, eles nada fazem”, critica Romero.

O maior exemplo vem de nadadora pernambucana Joanna Maranhão. Em junho, ela deu sua última entrevista a O TEMPO, criticando a CBDA. Para ela, não valeria mais a pena tocar no assunto e não receber o devido reconhecimento da entidade, por seus méritos dentro das piscinas. “Ela só estaria prejudicando ainda mais sua carreira. Os atletas temem represálias, que acabam influenciando negativamente suas carreiras. Para não sofrer ainda mais, a aconselhei que não tocasse mais no assunto”, comenta Nikita Neto, treinador da atleta. Na época, Joanna deixou claro todo o seu descontentamento, indicando não receber os devidos patrocínios por toda a externação do que lhe incomodava. Entre os alvos de Maranhão, o conceito clubístico que impera no país, além de critérios sem fundamentos de premiação para quem conseguem bons resultados internacionais.

Além dos nadadores, os técnicos também sofrem. Nikita, por exemplo, já passou por algumas situações diante de Coaracy Nunes, presidente da CBDA desde 1987.
“Em um congresso, não pude ficar calado quando o Coaracy enaltecia seus feitos. Bati de frente com ele e falei sobre a caixa preta dos patrocínios, deixando claro que ele ajudava quem e como quisesse. Não demorou para que os pais de uma atleta minha na época, a Etiene Medeiros, recebessem ameçadas dele, que chegou a dizer que ela não receberia a devida ajuda pelo simples fato de ser treinada por mim”, recorda Nikita.

Quando comparece a torneios internacionais, ele paga tudo do próprio bolso e fica nas arquibancadas como um mero torcedor, mesmo tendo atletas defendendo a seleção fora do país.

Como os técnicos têm direito a 20% da premiação e salários dos atletas, muitos também preferem se calar a correr o risco de não serem remunerados. “Quem resolve bater de frente são atletas aposentados ou em fim de carreira, sem grandes ambições. É engraçado porque o Coaracy criticava muito o ex-presidente, que ficou anos no cargo. E hoje ele faz a mesma coisa”, lembra o treinador, que teve os custos de um processo na justiça pagos pelo presidente. “Ele sofreu essa condenação e recorreu. Até hoje o processo se arrasta”, lamenta Nikita.

Base é esquecida em detrimento de enaltecimento dos grandes atletas

Aproveitando o fato da natação brasileira conseguir medalhas em importantes campeonatos internacionais, o presidente Coaracy Nunes, da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), insiste em defender suas ações, que mesmo assim, deixam muito a desejar. O mandato vai até o fim do ano e ele já garantiu que não permanecerá na função. “Tenho minhas dúvidas em relação à isso”, comenta Julian Romero, jornalista da Swim It Up, revista com foco nos esportes aquáticos.

Ele deixa claro que a missão da entidade vai muito além das conquistas de atletas de alto nível. “E as nossas seleções B e juniores? E a preparação de duas, três gerações de maratonistas para substituir a excelente geração Poliana Okimoto e Ana Marcela da Cunha em águas abertas? O que precisa ser feito é um planejamento de longo prazo e que isto seja executado”, destaca Romero, que viu ideias da CBDA serem divulgadas, mas não executadas como prometido.

Romero aproveita para deixar claro como deveria ser o posicionamento da entidade, dando atenção para todas as esferas da natação brasileira e deixando de lado o favorecimento próprio.

“O presidente não pode ser centralizador de ações. A confederação deve ser tratada como uma empresa, não como um terreno de propriedade privada. Ela deve impor-se objetivos realistas e a longo prazo que não dependam exclusivamente de dinheiro público. Ela deveria se preocupar em manter e ampliar os esportes aquáticos, não focar quase 50% de sua verba em natação de alto rendimento porque está sendo pressionada para ganhar medalhas olímpicas. Está faltando tornar a CBDA como um gestor do esporte, não de pessoas”, pontua.

Para ele, o tempo passou e agora pode ser tarde demais para correr atrás do prejuízo. A falta de investimento e interesse fez com que muitos atletas jovens, de grande potencial, desistissem do futuro nas piscinas, vendo as dificuldades que seriam enfrentadas, sem o devido apoio e acompanhamento.

“Os atletas estão escapando pelos dedos. Existe, comprovadamente, uma involução de que o número de atletas competitivos de 10 a 15 anos está caindo. Muitos justificam falta de apoio financeiro, outros porque não tem piscina, outros ainda dizem que perdeu a vontade porque começou a treinar muito cedo. É função da CBDA ter verificado isso há muito tempo atrás e colocado em forma de diretrizes diversos planos de ação para aumentar o número de atletas filiados, melhorar as condições de competição e oferecer até mais eventos”, relata Romero.

A parceria entre CBDA e federações, se fosse feita da forma ideal, contribuiria para que todos os envolvidos – e não somente alguns – fosse beneficiados.
“A CBDA, agindo desta forma, iria transferir a capacidade executiva para as Federações, cabendo apenas o gerenciamento para a Confederação. Mas isso deveria ter sido feito há muito tempo atrás, no mínimo 10 anos. Agora, por mais que coloquem dinheiro, pessoas, equipamentos, a natação brasileira perdeu um valioso produto que nunca poderá ser recuperado: o tempo”, lamenta.

 

 

 

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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