Troca constante de treinadores apresenta poucos resultados efetivos

cuca

Cuca é uma das raridades do futebol brasileiro ao estar na frente do Atlético há duas temporadas inteiras (crédito: Bruno Cantini)

A cultura brasileira tem suas especificidades e o futebol não foge à regra. O mediatismo por resultados e a ânsia por um retorno mais do que rápido impedem a continuidade de um treinador à frente de um clube de futebol por um período considerado, no mínimo, justo.

Se os resultados não aparecem logo de cara, poucos serão os dirigentes que terão a capacidade de administrar a pressão e saber que a chance de melhoria pode ser maior com sua permanência do que com a troca por um outro profissional, que precisará de mais tempo ainda para conhecer o grupo e aplicar sua filosofia e planejamento. Nas nove primeiras rodadas da série A deste ano, foram 10 trocas de treinadores, um número que aumenta a cada temporada.

“Isso é fruto da desorganização de um clube e da insegurança dos dirigentes, que decidem mudar o treinador tão logo se sentem pressionados. Eles precisam tomar alguma decisão para mudar o quadro e a mudança de técnico é a mais fácil e rápida. Porém, longe de ser a mais eficiente”, comenta o técnico Silas, hoje no América Mineiro.

No começo do ano, ele treinou o Náutico por apenas dois meses, mostrando a impaciência dos comandantes do futebol nacional. “A alteração na diretoria técnica por dar resultado no início, até pela necessidade de um choque. Mas isso é temporário, a evolução costuma durar poucas rodadas e acaba ficando claro que os motivos pelo mau momento são outros”, relata o treinador.

Buscando uma solução para acabar com a crise, os clubes trocam de treinadores com uma facilidade que chega a impressionar. A posição na tabela dos times mostra que o motivo é muito mais profundo.

Por outro lado, as equipes mais bem posicionadas souberam administrar um possível momento de dificuldade e não trocaram o treinador. A paciência e visão de que é preciso dar um tempo para o trabalho prosperar deu resultado. Dos 20 times que disputam a série A, apenas sete estão com o mesmo técnico  que começou o campeonato. O fato de todas estas equipes estarem da metade para cima da tabela não é nenhuma surpresa.

Para o meia Tchô, do Figueirense, dar tempo ao técnico é de suma importância para um clube que buscar bons resultados. “Além de conhecer bem o grupo, o treinador terá tempo para colocar em prática a seu método de trabalho. Ele saberá exigir ao máximo de cada jogador .

Às vezes, a mudança dá certo por conta da motivação dos jogadores em mostrar uma melhora para o novo treinador. Mas em muitas outra não adianta nada, justamente porque o treinador tem pouco tempo para mostrar o seu trabalho”, analisa o jogador.

Diferença de mentalidade

A paciência que a torcida não tem, na maioria dos casos, não deveria atingir os responsáveis pela gestão de grandes clubes. Tão logo veem uma sequência de maus resultados, já começam a pensar em alternativas para substituir o treinador, que pode durar muito menos do que pensa e gostaria no cargo. “No Brasil, cansei de ver um técnico começar mal uma temporada e logo ser trocado. Mas quando estive em Portugal, pude ver de perto uma outra realidade.

Começamos o ano de forma irregular, mas o técnico foi mantido até o final. Acabamos nos classificando para a Liga Europa”, mostra Tchô, que jogou pelo Marítimo Silas ainda não teve oportunidade de trabalhar fora do país como treinador, mas conhece a realidade de lá desde sua época de jogador profissional. “As mudanças são menores e o planejamento é mais bem feito. O número de contratações também é bem menor e a estabilidade é algo comum. Quando um novo treinador chega, ele costuma encontrar um grupo que joga junto há mais tempo e isso facilita. Não tem esse tanto de mudança no elenco que acontece no Brasil”, lamenta.

Silas, preocupado com a imagem dentro do mercado nacional, tem uma postura de não treinar mais que dois clubes por ano. “A coisa, quando você muda demais, não fica legal. Você perde credibilidade e não tem o temo necessário para fazer um bom trabalho. É melhor esperar o ano seguinte para começar um novo projeto do zero”, pontua. Sua melhor passagem foi pelo Grêmio.

O período de nove meses pode ser considerado longo na realidade brasileira. Neste tempo, Silas foi semifinalista da Copa do Brasil e campeão gaúcho, mostrando que um pouco de paciência e pulso firme das diretorias de clubes brasileiros podem dar um resultado além do esperado.

 Clubes que mais mudaram de comando no ano. De pouco adiantou…

América Mineiro – Vinícius Eutrópio, Paulo Comelli, Silas

Flamengo – Jorginho, Mano Menezes, Jayme de Almeida

São Paulo – Ney Franco, Paulo Autuori, Muricy Ramalho

Náutico – Silas, Zé Teodoro, Jorginho e Levi Gomes

Ponte Preta – Guto Ferreira, Carpegiani, Jorginho

Criciúma – Vadão, Sílvio Criciúma, Argel Fucks

Anúncios

Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s