Descaso marca esporte universitário no Brasil

 

EUA

O empresário Gustavo Velloso estudou em duas universidades dos EUA e sentiu na pele a diferença de como o esporte é tratado em relação ao Brasil (crédito: arquivo pessoal)

O Brasil possui incontáveis casos de atletas de alto nível que foram descobertos em peneiras ou por acaso, durante uma aula de Educação Física ou uma simples brincadeira na rua. Depois de terem seu talento lapidado, muitos jovens chegaram às equipes adultas do Brasil, participando de Mundial e Jogos Olímpicos. No entanto, o número, não somente de esportistas de sucesso, como de medalhas, poderia ser muito maior se o Brasil tivesse políticas de esporte dentro das universidades, onde os atletas estariam em um momento importante de transição, próximo ou até mesmo já presente em campeonatos importantes, e ainda com o suporte de estudos e pesquisas científicas para lhes dar um upgrade ainda maior na carreira.

A realidade brasileira é bem diferente do exemplo que acontece nos EUA, onde os esportes universitários são os grandes responsáveis pelo descobrimento e formação de atletas, que costumam fazer parte da potência olímpica norte-americana ao redor do mundo. O draft, processo de seleção que acontece anualmente, é o melhor exemplo de como as equipes profissionais se abastecem de jogadores de qualidade recém-formados em universidades que lhe deram a bagagem e experiência suficientes para chegar à principal liga do país com condições de brigar por uma posição de titular. “A estrutura por lá é incomparável e vem
desde a escola, antes mesmo da universidade. A necessidade por resultados imediatos impede todo um trabalho de formação em nosso país”, lamenta Émerson Silami, diretor da escola da Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No Brasil, os jovens precisam se dividir entre os estudos em escolas ou universidades e os treinos em clubes ou equipes para buscar a evolução dentro da modalidade de sua preferência. Nos EUA, as duas atividades acontecem no mesmo local e facilitam a vida do estudante/esportista. No país do Tio Sam, inclusive, as notas são pré-requisitos para a participação do jovem no time universitária. No Brasil, ir bem na escola costuma não passar de uma mera orientação, havendo, contudo, casos de exceção para que o futuro esportista reconheça e valorize a importância dos estudos em sua vida.

“Era necessário ter uma média de 75% para ser mantido no time. A estrutura de um estádio da segunda divisão universitária era invejável e ficava a frente de qualquer outro de Minas Gerais, tirando Mineirão e Independência. O campeonato universitário era como uma Copa São Paulo de Juniores, mas muito mais bem organizada e com um investimento bem superior”, analisa o empresário Gustavo Velloso, de 23 anos, que ganhou bolsa em duas universidades norte-americanas pelo bom desempenho no futebol.

Apesar de conhecer bem a realidade dos EUA, trazer o exemplo para dentro do Brasil é considerado algo impossível pelo diretor. “É uma utopia pensar que, um dia, chegaremos neste nível. Claro que falo isso com tristeza. Não dá para imaginar uma escola pública contratando um treinador de bom nível e ganhando um bom salário por isso. Nos EUA, os técnicos de escolas conseguem ser bem remunerados já na formação de futuros competidores”, destaca Silami.

Flávio Davis, técnico principal da base de basquete do Minas Tênis Clube, concorda com a distância existente. “Lá, essa organização do esporte universitário é feita com maestria. O esporte é tratado como uma ferramenta para a educação, sendo aproveitado para formação do profissional na sua plenitude. Já no Brasil, temos um completo descaso com o esporte nas escolas e universidades”, afirma.

Velloso também vê como difícil essa possibilidade. “A chance de chegarmos perto deles é de 0,5%. Lá, as universidades tem patrocínios do governo, investimentos próprios e também de ex-alunos, que se orgulham de ter estudado por lá e injetam muito dinheiro na instituição todos os anos, para serem usados no esporte. É algo diferenciado, impensável aqui para o Brasil”, destaca.

Competições universitárias preparam bem para desafios ainda maiores

Apesar dos atletas brasileiros que chegam para competições em alto nível exigirem dos seus concorrentes, é notório o maior número de representantes norte-americanos em torneios de relevância no cenário nacional. A ‘produção’ de esportistas com reais condições de conseguir medalhas e bons resultados é muito maior em um país que tem essa formação como algo cultural há muitas décadas. “As competições universitárias nos Estados Unidos costumam contar com grandes nomes internacionais daquela modalidade, já que muitos atletas de qualidade estudam nas instituições com bolsas. Quando as competições mais importantes chegam, eles já estão acostumados à aquela realidade e exigência”, aponta Silami.

As competições universitárias norte-americanas são equilibradas e recheadas de jogadores prestes a se tornarem ‘estrelas’ do esporte. Os jogos são transmitidos em rede nacional e os ginásios e estádios sempre recebem grande público, mostrando uma organização diferenciada, que atinge, ainda, patrocinadores, agentes e demais envolvidos. No Brasil, as competições universitárias servem, na maior parte das vezes, para dar ritmo de jogo a alguma equipe que participe de competições mais importantes. A estrutura é carente e fica muito longe da ideal para um país que busca, um dia, se tornar uma referência esportiva no cenário esportivo internacional.

Alguns dos principais atletas brasileiros perceberam cedo a diferença de tratamento e estrutura que teriam nos EUA e não pensaram duas vezes antes de rumo para a América do Norte em busca de uma evolução mais rápida. Os nadadores Thiago Pereira e César Cielo são apenas dois exemplos dos que estudaram e treinaram em universidades norte-americanas. Enquanto, por lá, os atletas de alto nível são formados a todo momento, por aqui, os números podem ser contados nos dedos de uma mão.

No futebol, os torneios são divididos em municipais, estaduais, regionais e nacionais. Somente as competições universitárias são separadas em três divisões. “Os times se dividem de acordo com investimentos, número de estrangeiros e de alunos. A principal divisão é transmitida na ESPN e tem boa visibilidade. Enquanto aqui, as universidades fazem um junta-junta, lá a coisa é levada a sério”, pontua Gustavo Velloso, que jogou futebol por dois anos e meio em duas universidades norte-americanas.

Mudança teria que estar baseada em política nacional

Para que o Brasil começasse a apresentar algum tipo de evolução esportiva dentro das universidades, mudanças de grandes proporções seriam necessárias. A começar por uma política nacional, conjunta entre algumas áreas. “Seria necessário um entendimento entre secretarias e ministérios do esporte e da educação, visando uma ação esportiva que contemple e foque nos atletas. A formação deles deveria ser na escola, que seria responsável por detectar este talento e dar condições para o seu desenvolvimento”, comenta Flávio Davis, técnico principal da base de basquete do Minas Tênis Clube.

“A valorização esportiva nos Estados Unidos acontece de verdade, ao contrário do Brasil, onde o esporte não é considerado pelas escolas. Temos um modelo diferente, baseado nos clubes”, detecta Émerson Silami, diretor da escola da Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para ele, o Brasil vive um período de descaso com o esporte, principalmente no nível universitário. “O caminho ideal seria a prática esportiva estar atrelada às aulas de Educação Física, onde o começo se daria no ensinos fundamental e médio. Mas a disciplina não tem seu valor e vivemos uma inversão, onde os clubes formam os atletas para as escolas, quando as instituições educacionais deveriam ser as responsáveis por levar o jovem aos clubes”, relata Davis.

Nem tudo está perdido…

Apesar de toda a distância entre o esporte universitário norte-americano e o brasileiro, algumas ações mostram que existe uma vontade de evolução. A UFMG, por exemplo, possui uma equipe de ginástica que não somente participa constantemente de campeonatos internacionais como costuma retornar com medalhas no peito.

A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), inaugurou, no último sábado, nova estrutura do Centro Desportivo, que dará suporte ao curso de Educação Físico e atenderá, ainda, a comunidade local.

“Acredito que a ampliação beneficia muito. Teremos uma área exclusiva e com muito mais espaço, além das quadras, poderemos utilizar a estrutura para aulas práticas e teóricas”, comenta a estudante do 7º período de Educação Física, Raquel Pessoa Rocha, 20, que veio de Raul Soares, interior de Minas, para estudar na UFOP.

A construção do Centro Desportivo, no Campus do Morro do Cruzeiro, começou em 1986, mostrando um trabalho de quase três décadas que insiste em ser realizado, mesmo diante de uma realidade de poucos investimentos e atitudes.

Haja diferença!

Nos EUA

– Esporte é valorizado desde a escola, durante os ensinos médio e fundamental.

– Atletas são formados na high school e chegam na universidade já com boas chances de virar jogador profissional

– Campeonatos universitários de primeira divisão são transmitidos ao vivo, são bem organizados e possuem vários patrocinadores

– Estrutura de ginásios e estádios universitários é superior à de de muitos estádios brasileiros

– Draft colocam jogadores universitários em equipes profissionais

– Ex-alunos de universidades fazem doações para verba ser usada no esporte

– Nota do aluno é pré-requisito para se manter na equipe
No Brasil

– Educação Física não é valorizada no Brasil

– Notas não são pré-requisitos para participar de equipes

– Campeonatos universitários têm nível amador

– Poucas universidades possuem time e estrutura

 

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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