Poliana Okimoto comemora medalhas do Mundial para esquecer o passado

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Okimoto superou crise de hipotermia em Londres e depressão para conquistar três medalhas em Barcelona (crédito: Michael Sohn/AP)

Mesmo depois da ficha ter caído, Poliana Okimoto não consegue disfarçar a felicidade e tirar o sorrido do rosto. A nadadora conquistou algo inédito inédito para o país ao terminar o Mundial de Desportos Aquáticos com três medalhas. Nenhum atleta brasileiro chegou a realizar esse feito até hoje. Em Barcelona, Okimoto foi ouro nos 10km, prata nos 5km e bronze nos 5km por equipes. O ouro nos 5km não veio por 2 centésimos de diferença. Na batida de mão, a norte- americana Haley Anderson ficou com o primeiro lugar, que em nada diminui o resultado final da brasileira.

“Depois de um 2012 muito ruim, os resultados deste Mundial foram ótimos. Minha maior expectativa era por uma medalha nos 10km, que também é a prova olímpica. Mas, depois de conseguir a prata nos 5km, nadei os 10km mais aliviada, sem aquela pressão que poderia incomodar. Realmente foi melhor do que eu esperava”, admite Okimoto, que sofreu uma crise de hipotermia durante a prova nos Jogos Olímpicos de Londres, no ano passado. O incidente a obrigou a abandonar a prova e fez ter início o período mais difícil da carreira da atleta do Fiat-Minas.

“Pensei muito em desistir, fiquei desanimada e queria largar tudo. A depressão chegou a bater. O meu marido e treinador teve um papel fundamental nisso. O Minas também foi muito importante pois acreditou em mim em um momento complicado”, destaca Okimoto, que fez questão de dividir o prêmio com os companheiros de equipe, treinadores e dirigentes. A preparação para o Mundial teve uma importante ajuda do trabalho funcional, que a ajudou a ter mais massa muscular e força na braçada.

Ricardo Cintra também não esconde a alegria de ver a atleta e esposa superando seus limites. “Muitos a criticaram após Londres e o antigo clube (Corinthians) não demonstrou nenhuma vontade em ajudá-la, isso foi triste. Muitos a criticaram. Mas daí apareceu o Minas mostrando muita confiança no trabalho dela, ajudando neste reerguimento”, comemora Cintra, um dos grandes responsáveis pela evolução de Poliana nos últimos anos.

Depois de se conhecerem em uma piscina em Santos, não demorou para engatarem o namoro e já começarem a morar juntos. Com apenas 25 anos e tendo os 50m livre
como especialidade, Ricardo não teve dificuldades antes de tomar uma das decisões mais importantes de sua vida. “Para mim, a concorrência era pesada com Xuxa e Gustavo Borges. Cheguei a fazer índice para Pan-Americano, mas já estava acabando a faculdade de Educação Física e tinha essa vontade de ser treinador. Resolvi fazer por ela o que gostaria muito que um treinador tivesse feito por mim”, lembra Cintra, que em menos de seis meses, conseguiu fazer com que Okimoto melhorasse todos os seus tempos em piscinas, desde os 200m até os 1500m. Até então, Poliana tinha muitas dificuldades para diminuir suas marcas.

Vendo que Poliana tinha potencial de sobra para maratona aquática, devido à alta resistência, Cintra não pensou duas vezes antes de direcionar o treinamento para a modalidade, que, pelo menos no começo, não foi muito bem recebida por Poliana. O treinador percebeu que seu trabalho de musculação poderia ser mais bem desenvolvido e teve que convencer a companheira a perder o medo de mar, que ainda persiste. “Tenho um pouco de receio, principalmente quando vou treinar sozinha. Mas o que acontece hoje é bem menor do que já tive. Na hora da prova, a adrenalina é tão grande que não dá nem para pensar nesse medo”, brinca Poliana, que agora pretende ajudar o Minas com bons resultados no Troféu José Finkel, que vai acontecer no próximo mês em São Paulo.

“Meus tempos nas provas de 800m e 1500 têm melhorado. Sou campeão brasileira nestas duas provas e quero recuperar o recorde brasileiro dos 1500, que já foi meu e hoje é da Nayara Ribeiro. No último Maria Lenk, fiquei a centésimos deste melhor tempo. Mas, minha prioridade ainda é a maratona aquática. Em relação a isso, não existe dúvida”, garante Okimoto.

Mesmo tendo as provas em mar aberto como preferência, os treinos acontecem sempre em piscinas. “Apenas 1% dos meus treinos são nos locais de prova de maratona. E isso só acontece em alguns finais de semana ou quando vou para outros Estados para disputar provas e competições”, ressalta.

Marido e treinador faz questão de ressaltar dedicação da nadadora

Poliana Okimoto foi campeã nacional, pela primeira vez, com apenas 14 anos. Agora, aos 30, ela começa a ter os melhores resultados da carreira, depois de muitos treinos, provas e braçadas. “Ela merece muito por toda a história de vida dela, por tudo que já fez e sofreu, pela dedicação e comprometimento”, elogia o treinador, que admite se sensibilizar com toda a rotina da atleta em alguns momentos.

“Estamos juntos 24 horas por dia e não é fácil. Vivemos para o esporte. O que fazemos é treinar, comer e dormir, mais nada. Essa é a realidade. É preciso muita persistência e força de vontade, são anos de dedicação. Fico muito impressionado com o empenho da Poliana, que nunca faz corpo mole e mostra uma vontade muito grande de sempre fazer o melhor. Ela é muito comprometida e disciplinada em todos os aspectos, inclusive o nutricional”, mostra Cintra.

“Ela costuma treinar em uma piscina sozinha e são treinos exaustivos, de 2h30 de manhã, mais 2h30 de tarde, além de 2h de parte física e musculação. Não é fácil. Olho para ela e admito que, às vezes, sinto pena. Ao mesmo tempo, tenho um orgulho enorme dela”, afirma. Após o episódio em Londres, o casal chegou a repensar se todo o esforço valeria a pena. Não se sabe ainda de onde, mas é fato que os dois tiraram forças para continuar se dedicando ao prazer e à obrigação de contribuir com a maratona aquática brasileira.

O fato de treinador e atleta serem também marido e mulher poderia prejudicar os treinamentos. Mas saber discernir os momentos em prol do melhor ambiente
possível, dentro e fora da piscina, é fundamental para que o trabalho cresça cada vez mais. A relação entre os dois é muito boa e alivia a tensão dos treinamentos. “Na hora da bronca, ela sabe que estou ali como treinador e me respeita nesta função. Não levamos nada para fora da piscina, sabemos separar isso muito bem”, comenta.

Debaixo de frio, chuva ou sol, Poliana garante que continuará se empenhando, tanto nos mares como nas piscinas. Mesmo depois de ter deixado seu nome na história da maratona aquática brasileira, ela afirma que quer mais e buscará melhores resultados. A força interior para se superar ela já mostrou que tem, assim como o talento e qualidade. Os que duvidaram de Poliana após Londres certamente estão repensando em tudo que afirmaram. Certamente, estes também tiveram importância para que a atleta buscasse uma motivação para calar as críticas e mostrar que muito pode ser conquistado, mesmo quando o fundo do paço parece ser alcançado.

 

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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