Uso do tira-teima na Superliga pode estar próximo

Imagem

O tempo que você gastou para ler essas poucas palavras é maior do que a tomada de decisão de um árbitro em uma partida de vôlei. As jogadas acontecem em um piscar de olhos e as decisões precisam ser pontuais e certeiras. Humanamente, não tem como ter um aproveitamento de 100%. “O vôlei atual está muito veloz. É complicado para os árbitros conseguirem visualizar com nitidez todas as jogadas”, detalha Lipe, ponteiro do Zaksa Kedzierzyn Kozle, time polonês que disputa o campeonato nacional. O jogador, que atuou, pelo RJX-RJ no ano passado, teve uma agradável surpresa na liga polonesa, uma das mais fortes do mundo. 

O campeonato local é o único do mundo a utilizar o challenge, mecanismo que possibilita que uma das equipes peça a revisão do lance. A ferramenta foi usada como teste no Mundial Interclubes, que teve a participação do Sada Cruzeiro, que terminou com o vice-campeonato da competição. A aprovação foi geral, por parte de todos os membros do elenco cruzeirense. Vários jogos da atual Superliga contaram com decisões erradas dos árbitros, que acabam por interferir diretamente não somente no placar, mas no comportamento dos jogadores dentro da partida. “Já passou da hora de fazerem alguma coisa. A relação do jogador com a arbitragem se limita ao jogo e todos querem ganhar. Quando algum erro acontece, a frustração é descontada na arbitragem. Isso poderia se evitado com o challenge”, analisa o central Acácio, do Sada.

A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) está ciente dessa necessidade e garante que tem a intenção de implementar a tecnologia no esporte. “Sou totalmente favorável e acredito que seja um caminho sem volta. Já fizemos contato com a empresa polonesa, responsável pela fabricação deste equipamento, mas ainda não tivemos retorno. O que sabemos é que trata-se de um alto investimento, já que seriam necessárias 16 câmeras de alta resolução instaladas em todos os ginásios do país. No entanto, acho que também não teríamos dificuldades em encontrar parceiros para arcar com esses custos”, comenta Renato D´Ávila, superintendente da entidade. Renato esteve presente no Mundial de Doha e pôde conversar, pessoalmente, com os responsáveis pela criação do programa. 

“Tive a oportunidade de aprender, com alguns cientistas, que a velocidade de um objeto, como uma bola de vôlei, não é possível de ser captada pelo olho humano, em muios momento. De acordo com a velocidade e o ângulo do árbitro, fica impossível determinar uma jogada. A tecnologia possibilita que o olho humano tenha sua capacidade de definição multiplicada por cinco. Em algum momento, vamos incorporar esse equipamento. Mas não posso precisar quando”, garante D´Ávila. 

Lipe acredita que é uma questão de tempo, visto que o vôlei brasileiro é uma referência no cenário internacional. “Tenho certeza que, qualquer campeonato de alto nível que queira evoluir, deve adotar esse sistema. Assim como foi a época de investir em estatística, por exemplo, hoje o campeonato que quiser ser top vai precisar adotar o challenge”, indica. 

Carlos Rios, presidente da Comissão Brasileira de Arbitragem de Voleibol (Cobrav) garante que a utilização pode estar mais próxima do que se imagina. “O Ary Graça, ex-presidente da CBV e atual presidente da FIVB é a favor do uso da tecnologia e a ordem que foi dada é para o seu uso, o quanto antes. A intenção é colocar o challenge no campeonato nas semifinais e finais. A ferramento não é mal vista pela arbitragem, pelo contrário. Sabemos das limitações do ser humano em acertar tudo quando se fala de um esporte tão rápido como o vôlei. Quando um time é prejudicado, um culpado é procurado rapidamente e isso cai por terra com o challenge. Sua utilização vai ajudar não somente os árbitros, como as equipes, jogadores e treinadores. É um elemento essencial para a realidade do vôlei moderno de hoje”, comenta Rios. 

Independentemente do custo, o investimento é tido como necessário. “Nenhum árbitro daqui se sente ofendido quando é realizado um challenge. Todo mundo tem a consciência de que uma bola que cai a dois centímetros da linha, por exemplo,  é difícil de ser visualizada sem câmera lenta. É um espetáculo extra para o público também. Se você visse como vibram quando um árbitro tem que voltar atrás em uma decisão errada…”, descontrai o ponteiro, feliz da vida no novo país. “A estrutura do campeonato é de dar inveja, ginásios novos e modernos, com um calendário perfeito para um campeonato de alto nível. Os playoffs são disputados em melhor de cinco partidas, com intervalo de cinco dias a cada dois jogos. É o sonho de qualquer equipe jogar sempre com o físico 100%. Isso fica meio difícil jogando, por exemplo, num campeonato disputado em 4 meses”, relata, alfinetando a liga brasileira, onde a sequência de jogos costuma receber críticas de jogadores e técnicos. 

“O que falta no Brasil é a consciência de que o esporte não roda em torno do futebol. Mas acho difícil que isso aconteça. O vôlei é o esporte mais vitorioso do país, aqui e em todos os outros países que já joguei, o vôlei é um esporte de elite, com espaço semanal em canais de TV aberto e por assinatura, em horário nobre, com ênfase em seus ídolos nacionais. Pra se ter uma ideia, a seleção quer fazer a primeira fase da Liga Mundial, numa chave onde encontra com o Brasil numa quadra montada em um estádio de futebol. O vôlei brasileiro tem muito ainda a aprender, a melhorar e a crescer”, lamenta Lipe. 

CBV já testa outra ferramenta

Um outro equipamento tecnológico já está em teste pela CBV. No entanto, ele detecta apenas as bolas que vão dentro ou fora. “É um software que tem o suporte de quatro câmeras, que está em desenvolvimento há sete anos. Já fizemos diversos testes e o último, definitivo, está prestes a ser feito junto ao IMI, um órgão que emite um certificado de aprovação para a utilização”, destaca Renato D´Ávila. 

“Quanto mais sistemas de precaução existirem, melhor. Isso dá mais credibilidade. Há seis anos, implantamos o alcool teste, onde todos os árbitros são submetidos a um teste do bafômetro antes das partidas. Até hoje não tivemos um único episódio. O vôlei é uma das poucas modalidades que investe muito em exames anti-doping, com essa intenção de dar credibilidade para que os atletas estejam limpos e consigam os resultados somente com a ajuda de sua capacidade física e técnica”, mostra o superintendente. 

Emissora não seria empecilho

Em entrevista ao jornal O Tempo no começo da temporada, Carlos Rios, presidente da Federação Mineira de vôlei e presidente da Comissão Nacional de Arbitragem de Võlei afirmou que o Sportv, emissora detentora dos direitos de transmissão da Superliga, poderia não concordar com o fato do jogo ter que ser parado a todo momento. “Enquanto passam um replay na TV, já daria tempo de ver o lance e definir a jogada”, discorda Acácio, central do Sada.

Renato D´Ávila, no entanto, acredita que não existiriam problemas. “Nenhuma outra modalidade sofreu tantas adequações quanto o vôlei nos últimos anos. Conseguimos nos adequar à televisão sem nenhum tipo de problema. O oitavo e décimo sexto pontos, por exemplos, determinam a parada do que chamamos de tempo da TV. O sistema de pontos corridos foi implementado para diminuir o tempo de jogo, beneficiando a grade das emissoras. A própria televisão é uma grande incentivadora da exposição dessas bolas duvidosas, mostrando um replay várias vezes, por ângulos diferentes, para não deixar dúvidas. Não acredito que eles irão se opor. É um sistema onde a decisão é tomada rapidamente para que o árbitro não que equivoque”, salienta Renato. 

Como funciona o challenge

Cada equipe tem direito a pedir a revisão de dois lances por set. Se um lance foi revisto e a equipe estava certa, ela mantém o direito de pedir o chalenge duas vezes. Se a contestação não proceder, ela perder uma chance. No começo do próximo set, as duas chances são retomadas. 


Anúncios

Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s