Um esporte milenar e elegante que tem caminho aberto para evoluir

Esgrima em cadeira de rodas exige experiência para bons resultados (foto: Alisson Gontijo)

Em um momento onde a esgrima ganha força no Brasil, Minas Gerais mostra representatividade no esporte, principalmente na modalidade paralímpica. O coordenador de esgrima do Barroca Tênis Clube, Carlos Moreira, será um dos árbitros que irão conduzir os duelos nos Jogos Paralímpicos da esgrima em cadeira de rodas. “Fiquei surpreso até pelo fato de ter sido árbitro internacional apenas uma vez, em 2011, durante o Pan-Americano de Esgrima que aconteceu em Campinas”, comentou Moreira, há 27 anos no meio, a maior parte como atleta.

Os benefícios de sua presença na capital britânica serão estendidos para o grupo que realiza dois treinos semanais em Belo Horizonte. “A possibilidade de intercâmbio é sempre interessante. A esgrima ainda é fraca no Brasil, começamos a nos consolidar nos últimos 10 anos. Essa chance nos abrirá portas para obter novos conhecimentos e fazer contatos que poderão nos ajudar bastante em um futuro próximo”, destacou o coordenador.

Vivenciar o dia a dia de um Olimpíada ao lado de referências da modalidade é encarado com muita expectativa. “Espero poder trocar ideias, conhecer novas pessoas que possam agregar valor ao trabalho que fazemos em Belo Horizonte. Ver de perto a estrutura de um evento grandioso também chama a atenção”, relata Moreira.

Se a esgrima para andantes já é considerado um esporte para poucos, o que dizer da esgrima em cadeira de rodas? Apesar do desconhecimento e do baixo número de praticantes, quem tem a modalidade no sangue faz questão de exaltar a prática, que traz muitos benefícios além do simples bem-estar.

Prática milenar

Além do brilho por ser um esporte primitivo, a esgrima resgata combates e duelos com armas brancas que aconteciam em um período distante, como no ano 1.190 a.C “É um esporte extremamente elegante. Em nossa sala de treinamento, existe um quadro que resume bem a prática: ‘a esgrima possui a inteligência do xadrez, com a elegância do balé e a agressividade das artes marciais. É uma mistura muito interessante”, coloca o analista de sistemas Gustavo Pereira, que ficou paraplégico em 1995 depois de um acidente de carro.

As principais diferenças se dão pela incapacidade de deslocamento dos deficientes. “O jogo paralímpico acaba sendo mais intenso devido ao contato intenso entre espadas, que acontece o tempo todo, já que os atletas não podem se afastar, como acontece na esgrima convencional. O treino de mãos acaba sendo superior também, já que isso pode fazer a diferença no resultado”, ensina Moreira.

Na esgrima paralímpica, existem três categorias, divididas por grau de lesão. Enquanto a categoria A serve par atletas com total movimento de tronco, a B é praticada por quem possui prejudicado o movimento de tronco e equilíbrio. Já na C, os atletas possuem limitações nos braços e pernas, dificultando ainda mais o desenvolvimento no esporte. Em Londres, o Brasil será representado pelo gaúcho Giovane Guissone, atual vice-campeão mundial. As armas também aparecem em trio: espada, florete e sabre. Esta última não entra na modalidade para deficientes.

Nos combates, atletas de diferentes idades, força e tamanho se enfrentam em busca do toque no adversário que vale ponto.  “Independentemente do tamanho e idade, tudo se iguala quando cada um tem uma espada na mão”, mostra Kléber Castro, técnico da equipe mineira formada há pouco mais de um ano.

Kléber ainda acumula a função de capitão do Corpo de Bombeiros. “Cansei de prestar socorro em acidentes e nossa intervenção sempre termina na porta do hospital. Com a esgrima, tenho a oportunidade de ter um contato direto com a parte da reabilitação”, destaca.

Esporte no sangue

Na categoria C, o fisioterapeuta Marcos Antônio Ferreira, 33, é um dos belos exemplos. Acidentado há cinco anos depois de um voo de asa delta, ele viu no esporte a possibilidade de continuar fazendo o que mais gostava na vida. “Sempre fui esportista e antes da esgrima, conheci o rugby. Em um dos jogos que participei, vi o anúncio para a esgrima e não pensei duas vezes”, lembra Ferreira.

No ano passado, ele conseguiu o vice-campeonato brasileiro nas modalidades florete e espada. “Admito que foi uma surpresa porque nunca havia participado de nenhum torneio. Não tinha noção do que encontraria. Acho que a força proporcionada pelo rugby foi primordial. Pude notar uma certa diferença entre eu e os outros competidores tetraplégicos”, comentou o cadeirante.

Como não tem o movimento das mãos, Ferreira acredita que as dificuldades para quem tem seu grau de lesão são ainda maiores. “A esgrima me ajuda bastante em vários momentos. O esporte exige movimentos precisos, já que o limite é maior. O nível de concentração  também aumentou bastante”, comemora.

Na categoria C, devido à limitação dos atletas, os combates acabam sendo mais lentos e travados. “A velocidade para as categorias A e B é bem diferente. A mobilidade motora é menor e os duelos ficam mais fechados”, ensina Kléber.

Para variar, superação

As dificuldades que aparecem durante os combates são pequenos obstáculos se comparados com o que os competidores enfrentam no dia a dia. “Trata-se de um esporte melindroso, mas que faz muita diferença na vida dos atletas, principalmente no que se refere ao equilíbrio do corpo. Para os andantes, essa é uma situação tranquila, mas quem é cadeirante a diferença é nítida. A esgrima proporciona uma maior reflexão corporal, além de melhorar a coordenação motora e nível de concentração”, analisou Kléber Castro.

Experiência é primordial

A experiência é tida pelos praticantes como um fator determinante para o sucesso, assim como a parte psicológica. “Não se deve fazer movimentos afoitos, pelo contrário. A tranquilidade é fundamental  um combate sereno. A experiência ajuda para uma leitura eficiente dos combates. A parte psicológica é tão ou mais importante do que a técnica”, mostra Kleber Castro, que reforça a ideia de igualdade a partir do momento em que dois atletas empunham seus instrumentos. “É um esporte rápido e preciso, que pode ter sua definição em segundos, por questão de detalhes”, relata.

Assim como acontece em outros esportes, cada atleta tem uma característica. Enquanto uns são especialista em ataques, outros tem a defesa como fator predominante. “O estilo varia, assim como nas artes marciais. Alguns são muito rápidos para atacar. Outros já mostram mais competência para defender”, detalha Castro.

Marcos Antônio Ferreira se coloca no tipo defensivo. “O pessoal fala que eu tenho boa técnica de defesa. Como somos mais lentos, não tenho todo o controle do troco nem a força normal do braço no momento de ataque. Nas ofensivas, preciso ser certeiro. Se não for assim, posso ser surpreendido com um contra-ataque, até porque para voltar com o corpo depois de projetadoá-lo é complicado”, mostra.

O jogo

Os combates têm a duração de três minutos. Neste período, quem alcançar cinco toques vence. Em caso de empate, sorteio para saber quem será beneficiado em caso de novo empate na prorrogação, que dura um minuto. Quem não for sorteado é forçado a adotar um estilo mais agressivo para desempatar a partida. “Já vi confrontos durarem poucos segundos”, mostra Castro.


Dedicação para evoluir

Apesar de alguns fatores serem determinantes para o bom desempenho, a evolução na esgrima em cadeira de rodas é inevitável, desde que os interessados tenham dedicação. Essa é a dica passada pelo professor Kleber de Castro, responsável pela turma de cadeirantes do Barroca Tênis Clube. “Infelizmente ainda não temos atletas em nível profissional. No entanto, o desenvolvimento no esporte é grande para quem se esforça e quer evoluir. Em seis meses, já é possível praticar torneios estaduais. Campeonatos nacionais podem acontecer em um ano de treino, e com mais 12 meses, campeonatos internacionais já podem ser uma realidade”, comenta Castro, que aproveita a oportunidade para divulgar a abertura de vagas para possíveis interessados. “Temos dez vagas em aberto para quem quiser participar e conhecer o esporte. As aulas não têm custo e tenho certeza que quem vier, vai gostar muito do que verá”, comenta.

Para as competições, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) arca com quase todos os custos. “Nosso maior objetivo é desenvolver valores para as Olimpídas de 2016”, concluiu Henrique.

Ajuda bem-vinda

Além dos benefícios que o esporte trouxe para enfrentar as dificuldades do dia a dia, os atletas também relatam vantagem nas outras modalidades que praticam. “Pratico rugby e esgrima e acredito muito que um complementa o outro. A força e o condicionamento do rugby me ajudam bastante na esgrima, que também me dá boa dose de noção de movimentos e estratégia, que utilizo frequentemento no esporte da bola oval. É difícil separar”, mostra Marcos Antônio Ferreira.

Ele ainda garante que sua letra ficou mais atrativa depois que algumas habilidades da esgrima foram desenvolvidas. “A minha escrita está melhor, mesmo usando uma adaptação. Isso ficou visível. Mas tenho certeza de que vários outros benefícios apareceram e eu nem me dei conta”, brinca Ferreira.

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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