MMA reforça bom momento mostrando poder de transformação

Vitor Belfort é uma das motivações de muitos alunos a quererem viver do MMA (0crédito:Fábio Motta/AE)

“É moda, coisa passageira, logo logo passa”. Muitos devem ter ouvido isso quando, há poucos anos, o MMA virou uma febre no Brasil e no mundo. No entanto, o esporte apresenta, a cada ano, afirmações sobre seu potencial. O que antes era um esporte para poucos hoje já se transformou numa real possibilidade de transformação de vida, principalmente para jovens talentos que já adotaram a modalidade como estilo de vida, muito além de um simples hobbie.

Bom exemplo são emissoras de TV aberta comprando os direitos das principais lutas do planeta. A chegada de um reality show mostra o nível alcançado, que agora se estende ao potencial de transformar vidas inteiras, assim como acontece no futebol. “Muitos jovens de hoje vislumbram, por meio do MMA, uma real possibilidade de dar uma melhor condição para suas família. Entre eles, temos alguns de origem humilde, que antes formavam o perfil do garoto que sonhava em ser um jogador de futebol”, comenta Cristiano Titi, treinador de MMA, que ainda concilia a carreira de lutador.

O perfil dos praticantes, que antes tinha como maioria jovens de classe média alta, que iniciam a relação com a luta com o jiu-jitsu, mudou bastante, principalmente nos últimos cinco anos, período em que o número de eventos cresceu bastante em todo o Brasil. “Atualmente temos eventos de MMA em todos os finais de semana espalhados pelo país. Isso não acontecia antes”, exemplifica Titi. Dentre estes eventos, muitos são de pequeno porte. Mesmo assim, trata-se de uma possibilidade de começar a fazer carreira no esporte. “Os lutadores precisam começar de alguma forma. Se não for assim, não vai ser de outra forma. Eles precisam passar por este processo”, relata Ely Pereira, professor de kick boxing e MMA, responsável pelo treinamento de três talentos da modalidade, que estão prestes a começar sua carreira profissional. Acreditando no potencial de cada um, Ely também se esforçou para não perder seus pupilos para as dificuldades que enfrentam no dia a dia. Uma bolsa foi dada para cada um durante dois anos afim de motivá-los a comparecer aos treinos e desenvolver o potencial de cada um.

No entanto, o trio de alunos ainda enfrenta alguns empecilhos para manter vivo o sonho de ser um profissional do MMA. Taylor Santos tem apenas 17 anos e divide seu tempo entre os treinos e alguns bicos, como o trabalho de garçon. “Gosto muito de lutar e quero realizar meu sonho em viver disso. Mas as dificuldades ainda atrapalham”, comenta o jovem, que precisa arcar com o custo das passagens e com a longa distância entre sua casa e a academia.

Moradora do bairro Santa Cruz, Jéssica Kelly, 23, começou cedo nas artes marcias, mas somente agora terá a primeira oportunidade de lutar de verdade. “Estou preparada, a vitória é consequência. Penso em fazer o meu melhor no esporte que tomei gosto”, apontou a estudante de Educação Física, que conta com a ajuda da mãe para pagar as mensalidades da faculdade. “A presença de um patrocínio na vida de um lutador faz muita diferença para ajudar nas despesas de deslocamento, alimentação, treinos e material”, mostrou Jéssica.

Há 14 anos, Lucas Mendonça tem relação direta com as artes. Em viagem para Porto Seguro, descobriu a capoeira e no seu retorno, adotou a luta como hobbie. Boxe, muay thai e jiu jitsu vieram na sequência e no começo desde ano o MMA chegou para cobrir uma lacuna. “A mistura de modalidades é o que mais gosto. Poder aliar o chão com a parte em pé, envolvendo diferentes artes me fez ver o que queria fazer não somente como hobbie, mas como estilo e meio de vida”, contou o empolgado estudante, que deixa de ir a alguns treinos por conta das despesas com passagens. “Minha família resistiu no começo, achava que era muito violento. A aceitação veio depois, quando mostrei empenho e os fiz ver que o esporte tinha regras. Me dedico 100%, teve dia que voltei do treino a pé, da Savassi até o Palmeiras”, lembrou.

Toda e qualquer dificuldade, felizmente, não impede que uma pessoa tenha sucesso dentro de um octógono. “Os projetos sociais estão em vários lugares e isso estimula a formação de atletas de qualidade. Esse perfil vem mudando. O interessante é que, estes jovens, que passam por muitas dificuldades desde cedo, demonstraram uma força de vontade enorme. Eles estão mais acostumados a lidar e passar por barreiras e a luta é apenas mais uma delas”, destaca Titi. “A realidade deles sempre foi dura e isso ajuda muito para que eles queiram correr atrás do sonho cada vez mais”, pontuou o lutador.

As inevitáveis dificuldades que acontecem durante uma luta mal se comparam com o que alguns passam no dia a dia. “A necessidade de alguns alunos é muito maior que a de outras. Eles veem ali um meio de vida, já que passaram por subempregos, saíram do interior e enfrentaram grandes barreiras. A vontade de transformar sua realidade supera a técnica e este espírito aguerrido faz a diferença em muitos momentos”, salientou Ely.

BH entra em jogo 

Titi, hoje, se vê como uma exceção dentro deste novo perfil. Formado em direito e com uma formação diferenciada, ele começou sua carreira usando quimono e fazendo do jiu-jitsu uma forma de praticar esportes. “Fui para o MMA de uma forma muito natural”, comenta. No primeiro grande evento de MMA em Belo Horizonte, Titi fez a principal luta da noite, quando venceu o norte-americano Ricco Washington. Depois de mais duas edições do evento, Belo Horizonte saiu do mapa, muito em função do assassinato de um torcedor atleticano na saída do local em um bairro nobre da capital mineira. “Aquilo foi coisa de torcida de futebol e prejudicou muita a continuidade do evento. O patrocinador, já confirmado para a quarta edição, cancelou o contrato depois de tudo que aconteceu”, lamentou.

Mas no dia 23 de junho, Belo Horizonte pode ter uma excelente oportunidade para voltar, de vez, a colocar seu nome no mapa do esporte que mais cresce no mundo. A edição de núermo 147 do UFC, maior evento do mundo da modalidade, ainda não teve seu local confirmado, mas a capital mineira deve ser a nova casa dos lutadores de alto nível que servem de exemplo e ganham mais fama, dinheiro e reconhecimento a cada ano. Impulsionado pela força do UFC, o esporte atingiu níveis antes nunca pensados, com lutadores fazendo o papel de estrelas, que antes cabia a esportistas de outras vertentes. Titi tenta cavar uma vaga em uma das lutas do Mineirinho. Confirmados, até agora, estão alguns duelos como Vitor Belfort e Vanderlei Silva, os dois treinadores das equipes do reality show. Quem também vai se apresentar são os dois finalistas do programa, que prometem despertar ainda mais a atenção do evento. “Uma das lutas que abrem será entre algum representante da casa. Já mandei meu material para eles e tenho esperança de lugar neste evento”, declarou Titi.

Crescer ainda mais 

Apesar de todo o sucesso que o MMA faz hoje, nunca é demais visualizar algumas situações ainda mais favoráveis que podem acontecer em breve. “Tenho certeza que o número de praticantes continuará crescendo em larga escala”, exemplificou Cristiano Titi, que comemora a boa fase vendo sua agenda de treinamentos cheia, com os interessados aparecem cada vez mais.

Apesar de todo o investimento e lucro que hoje são certos, a valor das bolsas dos grandes campeões ainda fica longe dos gloriosos tempos do boxe. “Lembro de uma luta do Mike Tyson onde ele desembolsou US$ 45 milhões. O Anderson Silva, um dos grandes nomes da atualidade, deve tirar cerca de US$ 4 milhões em suas lutas”, revelou Titi.

Com o número de torneios fervendo, as oportunidades para os futuros campeões não param de crescer. Em uma delas, é provável de algum treinador se encantar com a habilidade de um ou outro talento e tentar fazer dele o próximo Vitor Belfort ou Vanderlei Silva. “Se o cara tiver força de vontade e conseguir uma equipe de qualidade para orientá-lo e prepará-lo, ele terá boas chances de se destacar. O direcionamento de uma carreira hoje é muito mais real do que há cinco ou seis anos”, indicou Titi.

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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