Armador do Minas faz a diferença fora de quadra

Mark Borders mostra qualidade dentro de quadra e preocupação com futuro da família do lado de fora (crédito: Emanuel Pinheiro)

Quem vê a habilidade do norte-americano Mark Borders, 29, armador do time de basquete do Minas Tênis Clube, nem imagina na história de vida que se passa quando ele deixa as quadras e volta pra casa. Morando no Brasil há três anos, depois de passagens pelo basquete de Turquia, México, República Dominicana e Venezuela, ele reside na capital mineira desde agosto e finalmente encontrou um local que lhe dê uma estrutura e que lhe deixe pensar somente em fazer o seu melhor a favor da equipe comandada pelo técnico Raul Togni.

Nascido em Bartow, no estado da Flórida (EUA), Mark cresceu vendo uma realidade difícil, influenciada pelo local onde morava, uma espécie de favela gringa. Tráfico, armas e um gosto especial pelo basquete eram constantes no dia a dia de vários moradores. Uma realidade comum para muitos brasileiros, mas que também dá as caras em várias áreas de países mais desenvolvidos, que não recebem a devida assistência. “Alguns dos meus tios eram traficantes, mas sempre me falaram para estudar e tentar dar meu máximo para ser um jogador de basquete. Depois que eles tiveram filhos, mudaram de vida”, comenta Mark, que sabe que a infância é um período decisivo para muitos que estão envolvidos em um cotidiano longe do ideal.

Pensando nisso, Mark trouxe para Belo Horizonte o sobrinho Jamie, de apenas 15 anos, nascido quando a mãe tinha apenas 16. “As influências no lugar em que ele vive não costumam ser boas. Tem muita gente em volta querendo te levar para um outro caminho e essa é uma idade de uma decisão importante na vida, que pode decidir o futuro. Se ele ficasse lá e desandasse, me sentiria culpado. Ele adorou a cidade e vivenciar uma outra realidade tem sido muito positivo para ele, que está amadurecendo aos poucos”, comenta Mark.

O garoto tem mais três irmãos e pais separados. A mãe dá duro para dar o melhor para os filhos, mas a ajuda do irmão foi fundamental. “Fico muito feliz e orgulhoso quando volto para casa e vejo como sou um exemplo para as crianças da minha família. Os olhos deles brilham quando me veem e conversam comigo. Sempre tenho passar mensagens de motivação para eles, deixando claro que é preciso dar muito duro para que nossos sonhos virem realidade. Mas para isso, a vontade deles precisa ser maior do que a minha”, destaca.

Mark fez questão de ter a companhia do sobrinho em vários momentos na capital mineira para que ele visse de perto como é a rotina. “O mesmo aconteceu quando fiz o curso de Ciências Exatas, na Faculdade de Tampa. Levei ele para ficar comigo cerca de uma semana e creio que ele aprendeu muito nesta oportunidade”, lembra. O jogador se orgulha de ter sido o primeiro homem da família a conseguir vaga em uma faculdade. “Nos EUA, é muito difícil e caro fazer uma gradução. Devo tudo que tenho ao basquete, foi por ele que eu consegui uma bolsa de estudos para estudar e viver um dos melhores períodos de minha vida”, analisa.

Em agosto, Jamie deve voltar à Belo Horizonte. Atualmente, ele vive nos EUA onde tentar conseguir por definitivo o passaporte para morar no Brasil. “Adoro jogar pelo Minas. Não vejo a hora de volta para Belo Horizonte”, admite o jovem. Devon, seu primo de 11 anos, também deve embarcar em Confins ao seu lado. Atuando pelo sub-15 do Minas, o garoto já mostrou potencial e qualidade para se desenvolver no esporte. “Ele realmente é muito talentoso. Mas sempre deixo claro para ele e para os primos a importância de tirar boas nota e de estudar, principalmente depois que a carreira chegar ao fim. Também reforço valores como o respeito aos pais, a importância de Deus e de fazer por onde para chegarmos onde queremos”, comenta Mark.

Com o tio, as cobranças também acontecem, mas de uma maneira diferente da que acontece hoje com a mãe por perto. “Não sou um tio chato, daqueles que ficam no pé o tempo todo. Apenas o alerto sobre o que deve ser feito e sobre as consequências de nossas ações. Parece que ele me escuta de um jeito diferente”, comemora o tio. “Ele é um modelo para mim, em todos os sentimento. Ele faz o papel de pai e professor, me ensina a ser um homem, além de muitas outras coisas que contribuem no meu amadurecimento. Quando estive em BH, vi que era preciso treinador forte para concretizar meu sonho”, comenta Jamie.

Em períodos turbulentos, a irmã reclamava muito das atitudes do sobrinho para Mark. “Tudo que entrava em um ouvido, saía pelo outro. De um tempo para cá, ele melhorou, principalmente quando ameçava que me contaria sobre o que ele fazia de errado”, lembra. Quando ficou suspenso das aulas por brigar na escola, Jamie teve uma lição: ficou em casa durante todo o período cuidado do irmão de poucos meses de idade.

No futuro, ao lado da família, Mark planeja criar uma empresa de assessoria esportiva para acompanhar e orientar jovens promessas no começo de carreira. “Muitas vezes, somos influenciados por pessoas de má índole, que nos atrapalhavam ao invés de ajudar, que só pensam no benefício próprio, deixando de lado o atleta que deveria ser o maior beneficado”, alerta.

Já falando bem o português, o atleta cobra do parente criado como filho que ele também se empenhe para tentar falar bem a língua, o que pode lhe ajudar bastante no colégio que estuda em Belo Horizonte.

Na ausência do sobrinho, Mark se vira como pode para matar a saudade e o tempo longe do pequeno fã. “A gente se divertia muito por aqui, com filmes e video game. Realmente sinto falta dele. Quando ele está por aqui, a saudade da minha família fica bem menor”, lamenta. Mas em breve os velhos e não tão distantes tempos voltarão acompanhados de mais um integrante, que também adora o esporte e pode integrar o sub-12 do clube mineiro.

Antes rebelde, agora exemplar

Quando tinha pouco mais de 10 anos, Mark tinha um comportamento rebelde, deixando os pais preocupados com o que viria em sua vida. “Também já tive a idade de meus sobrinhos e sei como é essa fase da vida. Mas quero dar a eles o melhor e procuro passar o melhor exemplo para todos”, comenta.

Em muitas vezes, o jovem Mark chegava em casa após as 23h sem dar satisfação da onde estava e o que fez. O sobrinho acabou dando dores de cabeça para o tio, mas por um bom motivo. “Ele ficou fora de casa o dia todo mas depois me contou que havia passado várias jogando jogando basquete e treinando, inclusive sozinho”, admite o jogador, vendo que algum resultado já acontece graças ao seu bom exemplo do tio, que motiva o sobrinho a se esforçar para conseguir destaque na vida e carreira. “Costumo comentar com ele que é possivel sim eles serem muito melhores do que eu, mas que para isso é preciso dedicação, empenho”, sinaliza.

O sonho da NBA era grande para Mark, que acabou abrindo mão de sua maior vontade em prol da família. “O nível lá é muito alto, diferente de outros lugares que já joguei. Mas isso não quer dizer que aqui no Brasil, por exemplo, qualquer um consegue vaga em um time. É preciso ter talento e fazer por onde cravar sua vaga. Mas nos EUA, eu poderia demorar muito a conseguir uma vaga no lugar que eu desejava. Lá o um contra um é muito importante e demorei a desenvolver essa habilidade”, destaca. No país do Tio Sam, Mark chegou a treinar junto com o elenco de Indiana Pacers e Houston Rockets.

Nos dois primeiros anos no nosso país, o norte-americano representou as equipes de Assis e Araraquara, equipe que foram úteis para sua adaptação, mas que contavam com uma estrutura inferior a do Minas. “Recebi informações de outros americanos que
jogaram aqui que eu gostaria muito do que viria. E não deu outra, o Minas realmente nos dá todas as condições e assim, ficamos preocupados somente em fazer o nosso melhor dentro de quadra. Isso é o mais importante para um jogador profissional”, resume.

Determinação

No início da carreira, depois de se formar, Mark passou por alguns períodos de hiato, sem clube e sem muita certeza do futuro. Mesmo sem uma definição, Mark fazia questão de acordar as 6h da manhã para treinar sozinho e com alguns companheiros, além de fazer academia na parte da tarde. “O Jamie ia comigo para a gente bater bola junto, antes de eu deixá-lo na escola por volta das 9h. Isso foi importante para ele ver como eu dava duro, mesmo em um tempo em que eu não tinha garantias”, comenta.

Em BH, Mark costuma estar acompanhados dos jogadores de time para prestigiar outras equipes do Minas, como de futsal e vôlei. “O nosso grupo é muito bom, apesar de contar com vários jovens. Em pouco tempo, iremos dar muito trabalho para equipes
mais fortes, tenho certeza disso”, comentou, mesmo não sabendo qual será o seu futuro. Depois do NBB, seu contrato se encerra mas a vontade é de permanecer, até para que o sobrinho crie raízes com a cidade e se identifique com o que já foi visto.

Cinema e compras são dois dos passatempos preferidos do norte-americano. “Adoro fazer compras, principalmente tênis. Acho que tenho um problema sério, pois compro muitos pares, sou um aficcionado”, admite.

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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