Desgaste da Superliga tem motivo e solução

Superliga deste ano tem sido uma das mais exigentes para os jogadores na parte física (crédito: Alex de Jesus)

A atual edição da Superliga masculina de vôlei já ganhava ares de muito equilíbrio antes mesmo do seu começo. O andamento da competição mostrou jogadores e confrontos bastante disputados, que exigem muito dos atletas na parte física e também de todo o elenco e comissão técnica na parte psicológica. Mesmo não sendo um esporte de contato, o vôlei é uma modalidade de alto rendimento, onde a vitória é o objetivo constante. Para isso, é preciso que se esteja na melhor condição para as partidas, que valem muito mais do que dois ou três pontos. O inevitável desgaste é sempre comentado por treinadores e jogadores, que não perdem a oportunidade de pedir mais alguns dias de descanso para entrar com tudo no próximo compromisso.

Neste ano, todas as equipes realizarão, até a última rodada do returno, 132 jogos em 90 dias de campeonato. A média é de um jogo a cada dia e meio. Cada equipe joga uma vez a cada quatro dias. Depois das intensas partidas, os elencos costumam viajar um ou dois dias depois para já estar em quadra no dia seguinte. Em muitos momentos, essa média cai um jogo a cada três dias.

O critério técnico adotado pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) deixa um espaço mínimo para que as delegações tenham o devido descanso. A realização de uma partida dentro de casa seguida por outra longe de seus domínios diminui as possibilidades de recuperação de todos os jogadores depois de partidas que podem chegar à duas horas e meia de duração. Em épocas anteriores, o critério era outro, baseado em um menor gasto por parte dos clubes. Quando uma equipe vinha para Minas Gerais, ela aproveitava o deslocamento para fazer jogos contra mais de uma equipe local. “Cada ano a fórmula é uma e isso dificulta. Em muitas competições ao redor do mundo, como a NBA, o critério adotado é um só”, comentou o experiente o levantador do BMG-Montes Claros Rafinha, que participou de todas as edições da competição nacional.

Desta forma, uma viagem a menos entrava na conta e beneficiava também os jogadores que tinham um tempo maior para se recuperarem. “Com o antigo sistema, passávamos cerca de dez a cada 15 em casa e isso era bom para todos os times, pois havia tempo para treino e descanso. Desta forma, o nível técnico é maior. Para o ano que vem, seria interessante esta fórmula ser revista”, comentou Giovane Gávio, treinador do Sesi-SP. O ex-jogador ainda admite ter se decepcionado com o critério defendido por ele mesmo antes do campeonato começar. “Fui a favor deste critério técnico, mas a sequência de jogos e viagens me fez perceber que nos anos anteriores o desgaste era bem menor”, analisou.

Giovane deu como exemplo a viagem para o Rio de Janeiro para enfrentar o RJX. “Jogamos na terça e na quarta já estávamos na capital fluminense, sendo que o RJX jogaria no mesmo dia fora de casa. Ou seja, a equipe visitante teve mais tempo para descansar na cidade do que aquela que jogaria em casa. Um grande contra-senso. A aparente vantagem acabou sendo perdida”, argumentou o treinador.

No caso da equipe de Rafinha e do Vôlei Futuro (SP), de Araçatuba, o deslocamento é ainda mais desgastante pelo fato das equipes não estarem em grandes centros. “A logística faz muita diferença. Sempre acabamos fazendo viagens longas e isso complica no saldo final”, lamentou o jogador.

Muitos podem achar que o vôlei não exige tanto dos atletas como outros esportes, principalmente os de contato entre os participantes. A tática de muitos treinadores de realizar treinos no mesmo dia das partidas pode reforçar esta ideia. No entanto, a velocidade, o dinamismo e a exigência do voleibol nos dias de hoje é outra, apesar de que, em décadas passadas, o sistema de pontuação, exigia muito e partidas decididas no tie-break terminavam depois de quatro ou cinco horas. “A exigência é alta e sempre vai ser. Somos profissionais de um esporte com muito impacto, saltos e encaixes que acontecem a todo momento. Precisamos treinar e descansar. Atingir esse equilíbrio é fundamental. Se você forçar demais, a chance de estourar é grande”, comentou Giovane.

Rodízio de jogadores é alternativa para minimizar desgaste

Apesar da intensidade do futebol ser outra, um método utilizados pelos treinadores do esporte mais popular do Brasil também tem sido usado pelos comandantes de vôlei: poupar jogadores. Em muitos jogos, jogadores de destaque de muitas equipes acabam não sendo utilizados para evitar que eles sejam sobrecarregados. A maioria das equipes já teve que passar por isso nesta temporada. Jarbas Soares, técnico do Usiminas-Minas deixou Herrera de fora do início do jogo contra o fraco Macaé. Apesar do favoritismo, a equipe não esteve em um bom dia sentiu a falta da jogadora, que foi utilizada somente nas etapas finais, em função do andamento da partida.

“Quem mais sofre são as equipes que possuem um número maior de jogadores na seleção e que foram forçadas a realizar um rodízio mais constante, como Sesi, Cimed-SKY (SC) e RJX (RJ). A Copa do Mundo do Japão foi muito disputada e só terminou em novembro. Os atletas retornaram em um período próximo do início da Superliga, sem um tempo ideal para começar o campeonato com 100% de condições”, declarou Gávio. “Temos que ter um cuidado com esse jogadores, que fazem o espetáculo e ajudam bastante a fortalecer o campeonato nacional. Se não for assim, a competição tende a cair de produção. Não acredito que este seja um problema sério, mas precisamos rever essa situação”, declarou.

Alternativas já começam a aparecer

Algumas opções são sugeridas para que o cansaço não afete tanto as equipes. Realizar uma partida por fim de semana é uma ideia, assim com estender a duração do campeonato. “Na Itália, os clubes jogam uma vez por semana. Mas algumas competições europeias são marcadas para o meio da semana e os clubes já estão começando a sentir esse desgaste”, exemplificou Giovane Gávio.

A Copa do Mundo também pode ajudar as equipes a se prepararem melhor. “A Federação Internacional de Voleibol (FIVB) se comprometeu a se esforçar para que a competição termine em outubro em vez de novembro. Isso já daria um mês e meio a mais de preparação”, destacou Gávio.

Muitas equipes contam com jogadores que participam da competição internacional. Depois do retorno, os jogadores acabam não tendo o tempo ideal de recuperação para fazerem sua estreia no torneio nacional

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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