Central do Sesi supera deficiência e dá exemplo dentro e fora das quadras

Natália acredita ser um exemplo para muitos atletas, principalmente os portadores de alguma deficiência (crédito: Everton Amaro - Sesi-SP)

Histórias de superação sempre marcam a vida de deficientes, independentemente da lesão e época da vida que sofreram. Apesar de todas as dificuldades que são superadas, eles preferem ser vistos como um indivíduo qualquer, sem a necessidade de chamarem atenção por tudo que aconteceu em suas vidas. No caso de atletas, a maior vontade é se destacar dentro de quadra e mostrar toda a qualidade e o potencial que se desenvolveram desde as categorias de base. A central Natália, que atua nesta temporada da Superliga feminina de vôlei pelo Sesi-SP é um desses exemplos de pessoas que tiveram que superar algumas barreiras até chegar ao alto nível dos dias de hoje.

Depois de descobrir que havia perdido 70% da audição com apenas quatro anos de idade, Natália conseguiu se adaptar rapidamente às mudanças em sua vida. “No começo, cheguei a pensar que a perda auditiva me impediria de fazer várias coisas e que limitaria a ter uma vida normal. Mas depois de começar a fazer ginástica e vôlei vi que não seria tão difícil assim”, comenta a jogadora. Com seis anos, ela começou a usar um aparelho que corrige cerca de 90% da deficiência. “Estou para ganhar um novo, ainda mais potente. Essas novas tecnologias me ajudam muito”, comemora.

Além do esporte, conviver com outras pessoas com o mesmo problema fortaleceu a atleta e a fez perceber que oportunidades não seriam perdidas e que muito poderia ser conquistado, apesar da realidade diferente de muitos. O apoio de treinadores da cidade de Lorena, onde cresceu, foi fundamental. Como a família não tinha condições de arcar com as despesas de material e transporte, quem viu na garota o grande potencial fez questão de investir no desenvolvimento de Natália, que trouxe resultados acima do esperado.

A diferença de Natália para outras atletas não é possível de ser escondida. No entanto, o tratamento recebido é o mesmo. “Ela é uma integrante do grupo do Sesi-SP como qualquer outra. Ela se dedica tanto quanto as outras e consegue mostrar uma capacidade de superação muito boa”, elogia o treinador Talmo.

O apoio da família também foi fundamental para que Natália se sentisse como qualquer outra criança. “Minha mãe teve um papel fundamental. Ela fez de tudo para que eu enfrentasse o problema numa boa e me sentisse tão normal quanto qualquer outra pessoa”, declara.

No entanto, restrições que a fizeram dar valor ao poder de superação apareceram ainda quando ela era jovem. “Tive um problema em uma das escolas que frequentei. Os professores tinham dificuldade para me compreender e não tiveram a paciência necessária comigo como aluna. A diretora não me aceitou no colégio e chegou a afirmar que meu lugar era em uma sala especial”, lamenta.

Natália mostrou ser independente desde criança, principalmente com a ajuda da mãe, que a deu muita liberdade, apesar de alguns receios (crédito: João Pires - VIPCOMM)

Neste período, o aparelho de Natália estava quebrado e os estudos tiveram que ser interrompidos durante um ano inteiro até que um novo fosse comprado e uma nova escola a aceitasse. “Se eu a tivesse tratado como uma deficiente, ela estaria hoje encostada em um canto da casa”, declara a mãe, Dona Irani, que se orgulha da filha que tem. Apesar de até hoje o problema não ter sido identificado, ela garante que Natália teve uma criação normal. “Apesar de morrer de medo, eu sempre a deixei livre para brincar com as outras crianças. Quando ela saía de bicicleta, meu receio era grande, por causa dos carros. Mas ela sempre soube se virar muito bem. A Natália é uma benção na minha vida”, derrete-se.

O preconceito é encarado com naturalidade pela jogadora, apesar de ser considerado desnecessário. “Barreiras sempre vão existir, assim como esse pré-conceito. Muitas pessoas não sabem como me abordar, achando que a comunicação será difícil”, diz.

Depois de passar por várias situações, Natália acredita que o pior já ficou para trás. Hoje ela se sente tão normal quanto qualquer outra atleta, principalmente pelo fato de dividir espaço com grandes nomes do vôlei nacional. A jogadora chegou a ser convocada para a seleção brasileira de novas por José Roberto Guimarães. Uma conversa com o técnico Bernardinho também motivou bastante a meio-de-rede a persistir o esporte e lutar pelos seus objetivos.”Perguntei a ele se minha deficiência seria um empecilho para conquistar uma vaga na seleção. Ele disse que não, que bastava eu ter garra e determinação que eu chegaria onde quisesse”, comemorou.

Natália espera que sua presença e trajetória sirvam como motivação para muitas atletas que possuem alguma deficiência. Ter algum tipo de problema pode limitar, mas nunca impedir que um lugar mais alto seja alcançado na carreira profissional. “Principalmente para quem é deficiente, me vejo como um exemplo. Todas devem correr atrás de seus sonhos e desejos e sempre buscar quebrar as barreiras que apareceram”, aconselha.

Leitura labial é adicional a favor de Natália 

A deficiência auditiva costuma aguçar outros sentidos e obrigar o portador a se esforçar bastante para compensar a perda de um dos sentidos. No caso de Natália, a deficiência auditiva permitiu que a leitura labial fosse aperfeiçoada. Não bastante o auxílio que isso lhe traz no dia-a-dia, a jogadora conta com essa ajuda dentro de quadra.

Em muitas situações, ela consegue captar as conversar que colegas de equipe e adversárias estão tendo, colaborando bastante na previsão de algumas jogadas. “Fui beneficiada sim, de alguma forma, dentro de quadra. Fico sabendo o que as adversárias estão conversando, por exemplo. Isso é comum para mim desde crianca e foi minha mãe quem me ensinou. A leitura labial serve como auxílio para mim dentro e fora da quadra”, declarou. Sabedor da capacidade de Natália na leitura labial, o técnico Bernardo sempre tem o hábito de colocar a mão sobre a boca no momento de instruir suas atletas quando Natália está do outro lado.

Natália fez questão de desmentir um boato que chegou a correr nos bastidores da Superliga. Muitos diziam que ela desligava o aparelho em momentos de bronca dos trenadores. “Isso não cabe. Acho um desrespeito e falta de ética profissional”, declarou.

O treinador Talmo indica algumas das formas com que Natália se sobressai “Ela tem uma capacidade motora muito boa, além da sensibilidade. Claro que a audição é um componente muito importante dentro de uma partida de vôlei, mas a Natália consegue compensar com uma boa percepção visual na quadra”, comentou o ex-levantador, que tem um contato direto com um deficiente pela primeira vez durante sua vida esportiva.

Natália tem no técnico Bernardinho uma motivação para chegar à seleção (crédito: (Luiz Pires - VIPCOMM)

 Mãe se orgulha de verdadeira benção em sua vida

A deficiência de Natália, suspeita-se, veio de sua mãe biológica, que era portadora de rubéola. Com apenas um dia de vida, a jogadora foi adotada por Dona Irani. “Como a mãe dela era negra, acho que as manchas na pele em virtude da doença, não foram identificadas com facilidade, o que pode ter acarretado o problema. Mas a Natália nasceu perfeita”, comenta.

Somente depois de alguns anos de vida, a mãe percebeu que Natália não respondia aos seus chamados, além de sempre colocar a TV em um volume mais alto. Depois de a levar em um dos melhores otorrinos da cidade de Guaratinguetá, próximo à Lorena, onde reside, o diagnóstico de deficiência saiu. Como a lesão é gradativa, a perda de audição aumenta de um ano para o outro, o que obriga a jogadora a utilizar um aparelho que minimize os problemas.

Apesar do problema, Dona Irani fez questão de tentar evitar que a filha percebesse a lesão. Sempre no dia da matrícula, ela acompanha a filha e fazia questão de pedir à diretora e professores que todas as explicações fossem dadas de frente para a turma, para que Natália pudesse fazer a leitura e compreender o que era passado.

Situações constrangedoras eram rotineiras. Natália passou por alguns casos muito difíceis, que acabaram sendo superados. “Os colegas de turma gritavam no ouvido dela, coisa de criança. Com alguns treinadores, ela também sofreu bastante. Mas somente depois que ela virou profissional, é que ela me contou tudo que tinha passado. Ela é uma guerreira, uma balhadora, que serve de exemplo para muita gente”, elogia a mãe.

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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