Time mineiro de basquete em cadeira de rodas cai da primeira para quarta divisão por falta de apoio

Superação dos atletas é mostrada dentro e fora de quadra. Qualquer apoio é bem-vindo. Haja descaso! (crédito: Alex de Jesus)

Se várias das modalidades esportivas no Brasil já dependem de investimentos, o que dizer daquelas praticadas por deficientes físicos? Apesar de todas as dificuldades, a Associação Mineira de Paraplégicos (AMP), entidade que existe em Belo Horizonte há 30 anos, resiste contra todas as barreiras que aparecem em seu caminho diariamente. A equipe de basquete é uma das maiores forças da associação e, depois de diversas formações, mantém a força e a dignidade tão característicos das pessoas com deficiência. “O mais difícil é conseguir os patrocínios para ajudar nos custos das viagens. Na maioria das vezes, temos que fazer uma arrecadação com nosso próprio dinheiro para participar dos campeonatos”, comenta Daniel Brito, 28 anos, integrante da equipe desde os 12.

Daniel perdeu a perna esquerda quando tinha 10 anos. Um motorista embriagado atropelou seis crianças. Três faleceram. “Tenho certeza que a empresa que se interessasse em nos apoiar, teria sua marca muito bem divulgada por vários locais do país”, garante o assistente técnico e diretor de comunicação Evaldo Silva.

No currículo do time, estão nove títulos estaduais (em dez edições) e um vice-campeonato nacional da segunda divisão em 2007. A equipe é considerada muito boa tecnica e taticamente, mas sofre com a falta de apoio. “Estávamos na primeira divisão, mas caíamos para a segunda e depois para a terceira sem disputar uma única partida. Não conseguimos recursos para participar das competições em Recife e Niterói e fomos rebaixados automaticamente pela ausência”, lamenta Evaldo.

Regra

Dentro de quadra, devem ser colocados cinco jogadores que são divididos em pontuações. Quanto maior o grau da lesão, menor a pontuação, que varia entre um e quatro e meio. A soma dos pontos de cada jogador dentro de quadra não pode ultrapassar quatorze.

Comando

A equipe é dirigida por Eliseu Ferreira, 45, ex-integrante da seleção brasileira de basquete de cadeira de rodas e presente na associação desde 1983. Como atleta, ele disputou os Jogos Olímpicos de Seul em 1988, quando o Brasil ficou em 14º lugar entre 16 participantes. Eliseu acredita que a evolução do basquete de cadeira de rodas é nítida, mesmo sem a classificação do país para Londres 2012. Ele garante que a menor velocidade facilita a leitura de jogo e a elaboração de estratégias. Fora de quadra, Eliseu cobra uma maior atenção e divulgação do esporte, sempre pensando no interesse de potenciais investidores, que contribuiriam bastante para que a equipe tivesse melhores condições de trabalho.

Uma das maiores satisfações da equipe foi ter participado, em 2001, de uma competição internacional no estado do Texas, nos Estados Unidos. “Nesta época, a associação contava com várias parcerias e muita gente ajudava. Mas hoje a realidade é outra”, lamenta Eliseu. Ele lembra que ficou impressionado com a diferença de realidade entre Brasil e EUA, no que se refere à estrutura para os cadeirantes. “Todos os locais eram adaptados e a preocupação com os deficientes era outra”, garante. Dentre as equipes participantes, representantes do país local, além de Japão e Espanha. Um quarto lugar saiu de bom tamanho para a AMP.

Mudança

O poder de transformação do esporte é ainda maior para deficientes, considerados limitados por muitas pessoas. “Eu mesmo, quando entrei na AMP pela primeira vez, tinha uma visão distorcida sobre o potencial dos jogadores. Fiquei impressionado com a força de vontade e a capacidade dos atletas e acabei caindo no choro de tanta emoção”, lembra Evaldo, que se envolveu com a AMP por acaso. Passou na porta do local (que fica na Avenida do Contorno, 2655) e resolveu entrar para nunca mais sair. “Já são oito anos de luta”, comenta. Ele ainda acumula a função de vigilante e apesar de não ser cadeirante, se integrou a uma realidade que nunca havia imaginado para sua vida.

Para Eliseu, o basquete é uma forma de lembrar que a vida não acabou. “Muitos chegam sem saber o que fazer e encontram várias pessoas que passaram por experiências semelhantes. É uma evolução mental e física para todos eles”, comenta. Daniel comenta que se revoltou bastante nos primeiros anos após o acidente que lhe fez perder a perna esquerda. Mas um deficiente que viu na rua o motivou a buscar um outro caminho. “Percebi que ele ficava sentado o dia todo e não reclamada de nada. Por que eu reclamaria sendo que estava de pé? Foi ele mesmo que me indicou a AMP, que me fez acreditar que valia a pena viver. Se não fosse por ela, não sei se estaria vivo hoje”, lembra o atleta, que sofreu diversas provocações de colegas de escola por causa da deficiência. O sonho de ser jogador de futebol acabou, mas o prazer de aproveitar a vida foi resgatado e está mais presente do que nunca.

Os investimentos necessários seriam destinados para diversas frentes, como uniformes, viagens, hospedagem, alimentação e equipamentos. O alto custo da cadeira de rodas específica é uma das maiores barreiras para os atletas. “O preço de uma cadeira para a prática do basquete é de cerca de R$ 2000”, informa Evaldo. A cadeira é diferente daquela usada no dia a dia pelos integrantes, o que dificulta ainda mais a situação. Como se não bastasse as dificuldades rotineiras de locomoção e integração social e os custos para se manterem, os cadeirantes precisam conseguir recursos para dois tipos diferentes de cadeiras. “Muitos chegam aqui deprimidos, mas passamos a eles uma visão completamente diferente daquela de hospitais e clínicas. O valor da socialização e de uma nova vida é uma das descobertas que acontecem com quem chega aqui procurando por ajuda”, declara Evaldo.

Além do basquete, a associação conta com equipes de vôlei sentado, tênis de quadra, tênis de mesa e bocha. Evaldo afirma que as dificuldades de todas as equipes de basquete para cadeirantes são as mesmas. No entanto, o apoio difere para os grandes centros. “Equipes do Rio de Janeiro e São Paulo contam com investimentos que acabam fazendo a diferença”, relata.

O próximo compromisso da equipe começaria no dia 13 de dezembro no Espírito Santo. O objetivo era conseguir os R$ 3500 reais para o aluguel do ônibus, que precisa ter características específicas como amplo bagageiro para que as cerca de 20 cadeiras possam ser transportadas de forma segura, além da presença de um banco que não seja de couro. O Campeonato Brasileiro da Terceira Divisão acontece até o dia 18 e o acesso já é comemorado. “Temos uma equipe muito boa e os adversários realmente estão em outro nível, com exceção de um carioca, que conta com apoios e patrocínios. Como duas equipes sobem, acredito que a definição já está bem encaminhada”, salienta. No entanto, a falta de recursos não possibilitou a participação. A ausência fez o que estava ruim ficar pior: a equipe foi rebaixada, automaticamente, para a divisão de acesso, equivalente à quarta divisão.

Enquanto poucas mudanças significativas acontecem na realidade da AMP e de seus atletas, os integrantes da equipe continuam fazendo o que podem para manter vivo o sonho de mudança. Tanto na estrutura, como no pensamento da sociedade, que apesar de ter apresentado evoluções, ainda mostra grande distância da situação ideal, com valorização, reconhecimento e respeito.

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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