Trabalho de estatísticas é base para definição das estratégias no vôlei

Tiago Silva é o scouter do Sada. Para ele, trabalho em conjunto com treinador é fundamental (crédito: Cristiano Trad)

Todos sabem que para se chegar ao posto mais alto, o trabalho de muitos envolvidos é necessário e fundamental . Profissionais que, às vezes, são desconhecidos, mas que têm grande importância para a conquista de vitórias e títulos. Um trabalho árduo e minucioso que pode fazer a diferença em momentos decisivos. No vôlei, as estatísticas recebem grande parte da atenção dos técnicos e jogadores para avaliar os números positivos e negativos em relação aos fundamentos. Os profissionais que ficam por conta desses importantes detalhes não entram em quadra, mas garantem que sua contribuição é primordial para a evolução da equipe dentro das quatro linhas. “Os dados coletados são passados para o treinador que, a partir deles, elabora sua estratégia. Posso dizer que, hoje, o vôlei é um verdadeiro jogo de xadrez, onde as informações passadas ajudam na movimentação das peças”, exemplifica Marcelo Mello, scouter do Vivo-Minas desde o início desta temporada. No time mineiro, ele está desde 2005, realizando outras funções. Do lado do Sada, Tiago Silva é o responsável pelas estatísticas. Para ele, um time sem esse profissional está fadado ao fracasso. “A função é essencial no esporte de alto rendimento, principalmente para que a equipe se prepare bem taticamente”, garante. Para ele, a importância da tecnologia no vôlei só não é maior do que a utilizada no futebol americano, onde vários assistentes ficam responsáveis por coletar os dados dos jogadores.

A montagem da equipe é influenciada diretamente pelo dados obtidos por este profissional, que também acumula a função de filmar as partidas tanto da equipe que representam, como dos adversários. Os scouters também comparecem aos jogos entre outras equipes para colher os dados das equipes que serão enfrentadas em breve. “As informações obtidas entre os profissionais de cada time são trocadas. Todos têm acesso às informações dos adversários. O que faz a diferença é a leitura que cada treinador fará das informações que têm em mãos”, detalha Mello.

O trabalho dos estatísticos consiste em avaliar e qualificar as ações que acontecem durante uma partida. Cada saque, ataque, bloqueio e defesa recebe uma nota, que varia de acordo com o desempenho daquela ação específica. No caso dos passes, por exemplo, eles são divididos por meio das letras A, B e C. Enquanto a primeira letra se refere a um passe perfeito, onde o levantador tem todas as jogadas disponíveis, o B já é referente ao passe onde a bola de meio não pode ser usada. A letra C é correspondente a um passe ineficiente, onde o levantamento deve ser feito fora da rede, devido á dificuldade da recepção. Além disso, ainda consistem no passe aqueles que não acontecem (aces) e aqueles que são passados para o outro lado já no primeiro toque. Já os ataque são dividos em pontos feitos, pontos dados ao adversário por meio de erros e bolas que continuam em jogo, além dos 36 lugares espalhados na quadra onde a bola é lançada. “Durante um rali, quando o ponto demora a acabar, temos que ter bastante agilidade pois as teclas devem ser digitadas corretamente, enquanto cada passe, levantamento, ataque e bloqueio é analisado”, mostra. As informação são cumulativas e são usadas tanto durante a própria partida como durante os treinamentos. “Os jogadores, logo após o banho, são os mais interessados em saber em quais fundamentos eles não tiveram um bom desempenho”, coloca.

Durante a partida, várias informações são enviadas ao assistente-técnico, que as consulta por meio de um tablet, antes de passar ao treinador na beira da quadra. “Esses dados são passados aos jogadores a todo momento. Recentemente, vi um jogo da seleção feminina, onde José Roberto alerta a levantadora Dani Lins sobre o alto índice de acertos da Mari, orientando-a a explorar mais essa jogadora”, lembra Marcelo. A evolução do voleibol aconteceu de forma intensa tanto dentro como fora de quadra. O jogo sofre modificações drásticas em pouco tempo e toda informação que puder ajudar é bem-vinda. “Em um esporte de alto rendimento, as ferramentas que utilizamos acabam sendo decisivas”, coloca Mello.

Ele se refere aos programas utilizados pelos scouters: o Data Volley e o Data Video, que funcionam de forma sincronizada. Enquanto um é responsável pela coleta de informações por meio das classificações de fundamentos e identificação dos jogadores, o outro ajuda no registro das imagens, que provavelmente, serão incansavelmente revistas para que todos os detalhes sejam analisados profundamente. “A maior dificuldade é que não existem cursos específicos para nos ensinar a utilizar os programas. Além disso, ele é todo em inglês, o que nos força a realizar traduções a todo momento. Como tenho menos tempo de uso, constantemente peço ajuda para outros scouters que sempre ajudam quando necessário”, relata. A facilidade que os equipamentos fornecem é valorizada. “Antes tínhamos que gravar todo um jogo para depois de seis ou sete horas, termos condições de começar a fazer as análises. Hoje, tudo é feito em tempo real e um uma hora e meia ou duas horas, conseguimos ter acesso a todos os dados”, esclarece Tiago. Para ele, uma palavra resume o perfil ideal de um bom scouter: atenção. “Devemos estar atentos a tudo a todo momento. Temos que ter boa capacidade de observação e prestarmos sempre atenção aos detalhes”, orienta.

Ainda se ambientando à ferramenta, Mello garante que dominá-la é fundamental para que um scouter possa ser eficiente em sua função. “O programa é bastante complexo e ainda estou aprendendo”. Ele garante que outras características, como dinamismo e organização são importantes para um bom profissional das estatísticas. “A cada jogo, temos que estar preocupados com a fiação e conexão dos ginásios para que computadores e impressora possam funcionar perfeitamente”. Muitos dos dados com informações resumidas das duas equipes são impressos no final de cada set e passados aos auxiliares no banco de reservas.

Contando a favor de Mello, está o fato dele ter boa experiência como treinador. No ano passado, ele comandou a equipe infanto-juvenil do Minas, enquanto neste ano, é o treinador do juvenil masculino. “Essa vivência me ajuda bastante. Sempre que posso, passo os dados para o Marcelo acompanhados de algumas dicas”, diz. A abertura do treinador é fundamental para que o trabalho em conjunto gere resultados favoráveis.

O entrosamento com o treinador também pode contar bastante. Já sabendo quais são as preferências dos técnicos, os scouter se preocupam com aqueles dados específicos. “O Marcelo Fronckowiak gosta muito de saber o momento do jogo em que os erros e acertos aconteceram, assim como com qual posicionamento de rede tivemos um melhor rendimento”, mostra. Tiago afirma que ter o conhecimento do perfil e preferências do treinador é muito importante no momento de passar as informações. “De nada adianta eu avaliar um passe como bom se o treinador não concorda com o critério. Tenho que fazer a leitura de acordo com o critério do treinador e esse trabalho em conjunto é essencial”, comenta.

Apesar de ficarem isolados atrás das quadras durante as partidas, o trabalho deste auxiliar deve sempre ser feito ao lado do treinador e outros membros da comissão. É por meio de suas análises e constatações que treinamentos específicos para alguns atletas serão feitos, procurando melhorar determinado fundamento. No dia a dia, técnico e scouter devem fazer um trabalho em conjunto pensando na evolução da equipe como um todo.

Nos treinos, eles sempre estão próximos, procurando acertar um detalhe ou outro que pode fazer a dferença na próxima partida. Os dados recolhidos durante os jogos servirão de base para o planejamento montado. Muito além deles, também ajudam no trabalho as estatísticas dos jogadores de toda a temporada e não somente da última apresentação. Um bom exemplo dado por Marcelo foi da jogadora Ivna, que era desconhecida no começo da temporada passada. “No primeiro turno, ela faz um belo campeoanto. No segundo, ela foi bem marcada e seu rendimento caiu bastante, já que as equipes já sabiam como neutralizar seus pontos fortes”, coloca.

Da próxima vez que você for a um jogo de vôlei, tente identificar esses profissionais no fundo da quadra, sempre acompanhados por ferramentas tecnológicas de uso mundial, que são eficazes e contam bastante para uma temporada proveitosa. Os méritos vão bem além do treinador e jogadores. Os scouters agradecem a atenção, mas garantem que as conquistas são fruto de um trabalho em conjunto.

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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