Iron Biker: competição para poucos

Preparação intensa e com bom tempo de antecedência é primordial para participar do Iron Biker (crédito: Léo Fontes)

Praça do Papa, sábado, 9h. Estes foram o local, data e hora da largada do Iron Biker, uma das mais tradicionais e exigentes provas do ciclismo nacional. Cerca de 500 competidores saíram de um dos pontos mais altos de Belo Horizonte para percorrerem, em formato de maratona, exatos 100, 4 km de prova, divida entre sábado e domingo. Partida e chegada aconteceram no tradicional ponto da cidade. “O Iron Biker abrange profissionais e amadores. Ela é diferenciada pela tradição que já a acompanha há tanto anos, além do clima agradável entre tantos participantes”, comenta Felipe Pais, 28 anos, que parte para a sua 10ª participação.

A primeira edição aconteceu em 1993. De lá para cá, são 19 anos e 18 edições. O contratempo aconteceu no ano passado. “Tivemos problemas administrativos com as prefeituras de Ouro Preto e Mariana”, resume o criador e organizador Gil Canaan. Para não correr riscos, um cancelamento que deixou muito ciclista desapontado, ao mesmo tempo em que deixou ainda maior a vontade em participar de uma prova histórica. Nos últimos oito anos, as duas cidades, privilegiada por trilhas técnicas e por paisagens desconcertantes, receberam a competição. No ano de estreia o trajeto foi entre Ouro Preto e Belo Horizonte. Algumas variações aconteceram futuramente, mas sem deixar de lado o espírito do evento, de proporcionar aos inscritos uma prova dura, mas que dê gosto ao chegar ao final com a sensação de dever cumprido. “A maioria participa para receber a medalha, dada somente aos que completam a prova. É um desafio pessoal muito bacana”, relata Gil.

Para que a capital do estado recebesse o evento, novos locais tiveram que ser descobertos. Propriedades particulares estavam bem no meio do caminho traçado pela organização. Um problema considerável, à primeira vista. “Conseguimos a autorização até com certa facilidade. Acho que o perfil do ciclista e a credibilidade da prova contaram bastante a favor”, comenta Gil. No entanto, percalços são constantes para deixar tudo pronta para uma competição do porte do Iron Biker. “Quem é de ferro mesmo é o pessoal da produção e organização. A turma faz porque gosta de verdade, apóia e quer ver o evento acontecendo”, elogia. “Correr em casa sempre tem um gosto especial. Teremos família e amigos mais próximos, nos apoiando, e isso conta bastante para um melhor desempenho”, revela Felipe. Introduzido no ciclismo por um tio, Felipe tomou gosto pela coisa principalmente depois que teve a oportunidade de começar a a trabalhar em uma oficina de bicicletas. “Me apaixonei pelo esporte”, afirma o atleta, que acumula a função de treinador. Ele é responsável pela preparação de cerca de 10 pessoas que também vão participar da competição.

Hugo Prado Neto é um dos maiores ciclistas brasileiros da atualidade. Aos 32 anos, ele acumula participações em diversas competições, dentro e fora do Brasil, que o credenciam a ser um dos favoritos para o Iron Biker 2011. “O mais bacana desta prova é a tradição e, é claro, a possibilidade de competirmos em uma região com as melhores trilhas do país”, comemora. “Desde 2005 participo todos os anos, mas não tive muita sorte nas minhas participações, quando encontrei imprevistos como pneus furados”, comenta. Sua melhor colocação foi em 2009, quando chegou na segunda posição, atrás de Róbson Ferreira, atleta treinador por Hugo. “Terei que superar um superatleta. Ao mesmo tempo em que treino, pretendo colocá-lo na melhor forma física possível”, detalha. Curiosidades que não são muito comuns de se ver no meio do esporte.

Quando recebeu a sugestão de fazer a prova em Belo Horizonte, Gil não levou muito a sério. Reconsiderou e as pesquisas foram iniciadas. O que era improvável, virou realidade. O número de inscritos diminuiu em relação à edição de 2009. “O pessoal gosto de treinar nas trilhas onde vai acontecer a prova. Como as empresas não autorizariam a entrada prévia, não pudemos divulgar o percurso. Acho que isso pode ter desanimado um pouco. Mas eles perderão muitas novidades que vão acontecer neste ano”, lamenta Gil. Cerca de 500 estão confirmados para este ano, enquanto mais de 800 estiveram presentes há dois anos.

A ideia de criar uma competição de importância, veio por meio de outro esporte, o motociclismo, um hábito antigo de Gil. “Minha intenção era criar um evento como o Enduro da Independência, mas com bicicleta”, lembra. A bicicleta, no período, era utilizada para complementar os treinos. Sem nenhuma pretensão, o formato de maratona foi o escolhido. “Até hoje não existe uma outra competição com esse perfil”, garante Gil.

Para os que querem os primeiros lugares, resistência e regularidade são fundamentais. Outros fatores contam como um equipamento eficiente e, quem sabe, estar com a sorte em dia. Mas muitos entram pensando em provar os limites testados nas trilhas, companheira fiel dos momentos de lazer. “Para aventureiros que não estão habituados, não dá. Um período de, no mínimo, cinco meses, é recomendado para aqueles que já faz trilhas há algum tempo”, orienta Gil. “Quando participei pela primeira vez, não me preparei como deveria. Um treinamento adequado ajuda a minimizar o desgaste, que é uma das principais causas de quedas”, alerta Felipe.

Pensando na vitória, Hugo não descarta a ajuda da sorte e de outros itens. “É importante uma boa preparação física e psicológica. Como estamos no final do ano, é de bom grado que uma estratégia inteligente seja aplicada, para equilibrar a força que deve ser usada. Equilíbrio é fundamental”, indica. Com a possibilidade de chuva, pode ser que atletas técnicos e habilidosos se beneficiem, principalmente nas decidas. A velocidade média será reduzida e muito será exigido dos participantes, caso São Pedro não colabore.

Para o Iron Biker e os próximos desafios, Hugo teve o privilégio de passar 20 dias na Ilha de Kona, no Havaí, para se aclimatar a condições que poderão ser encontradas em breve. “Isso serve como estímulo para o corpo”, relata.

A Itália possui uma competição de nome parecido e que se iguala na importância, o Iron Bike. Mas lá, são oito dias de prova! Os ciclistas ficam acampados, entre um dia e outro, e passam por maus bocados. “A maior parte da prova os participantes carregam a bicicleta ao invés de pedalarem”, mostra Gil. Travessias de grande dificuldade são apenas um dos empecilhos. Em uma competição de longa duração, perrengues e história para contar não faltarão. Para quem conclui, o sentimento é de conquista e rompimento de barreiras antes desconhecidas. Quem vence uma competição como esta, merece um prêmio de valor. Ao invés do merecido descanso, a chance de participar do Iron Biker em Minas Gerais. Haja pedal! Os espanhóis Milton Ramos e Nuria Martinez estarão em Belo Horizonte e prometem ser um adversário de peso para outras figuras importantes, como Róbson Ferreira, campeão nas duas últimas edições, Hugo Prado Neto, Uirá Ribeiro, Daniel Zoia e Márcia Matos.

Uma das novidades deste ano é a categoria dupla mista, que visa incentivar as mulheres a participar da prova. “A presença de um homem motiva bastante e o resultado está sendo muito bom. Nesta opção, a quilometragem é menor e isso também ajuda”, comemora Gil. Ao todo, são 29 categorias. A mais esperada, é claro, é a elite, onde as grandes feras percorrerão em um período próximo de três horas o percurso traçado pela organização. Muitas subidas são aguardadas e irão exigir dos competidores muito fôlego e persistência.

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Sobre Daniel Ottoni

Desde 2011, repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Fale comigo no d.ottoni@gmail.com
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