MMA reforça bom momento mostrando poder de transformação

Vitor Belfort é uma das motivações de muitos alunos a quererem viver do MMA (0crédito:Fábio Motta/AE)

“É moda, coisa passageira, logo logo passa”. Muitos devem ter ouvido isso quando, há poucos anos, o MMA virou uma febre no Brasil e no mundo. No entanto, o esporte apresenta, a cada ano, afirmações sobre seu potencial. O que antes era um esporte para poucos hoje já se transformou numa real possibilidade de transformação de vida, principalmente para jovens talentos que já adotaram a modalidade como estilo de vida, muito além de um simples hobbie.

Bom exemplo são emissoras de TV aberta comprando os direitos das principais lutas do planeta. A chegada de um reality show mostra o nível alcançado, que agora se estende ao potencial de transformar vidas inteiras, assim como acontece no futebol. “Muitos jovens de hoje vislumbram, por meio do MMA, uma real possibilidade de dar uma melhor condição para suas família. Entre eles, temos alguns de origem humilde, que antes formavam o perfil do garoto que sonhava em ser um jogador de futebol”, comenta Cristiano Titi, treinador de MMA, que ainda concilia a carreira de lutador.

O perfil dos praticantes, que antes tinha como maioria jovens de classe média alta, que iniciam a relação com a luta com o jiu-jitsu, mudou bastante, principalmente nos últimos cinco anos, período em que o número de eventos cresceu bastante em todo o Brasil. “Atualmente temos eventos de MMA em todos os finais de semana espalhados pelo país. Isso não acontecia antes”, exemplifica Titi. Dentre estes eventos, muitos são de pequeno porte. Mesmo assim, trata-se de uma possibilidade de começar a fazer carreira no esporte. “Os lutadores precisam começar de alguma forma. Se não for assim, não vai ser de outra forma. Eles precisam passar por este processo”, relata Ely Pereira, professor de kick boxing e MMA, responsável pelo treinamento de três talentos da modalidade, que estão prestes a começar sua carreira profissional. Acreditando no potencial de cada um, Ely também se esforçou para não perder seus pupilos para as dificuldades que enfrentam no dia a dia. Uma bolsa foi dada para cada um durante dois anos afim de motivá-los a comparecer aos treinos e desenvolver o potencial de cada um.

No entanto, o trio de alunos ainda enfrenta alguns empecilhos para manter vivo o sonho de ser um profissional do MMA. Taylor Santos tem apenas 17 anos e divide seu tempo entre os treinos e alguns bicos, como o trabalho de garçon. “Gosto muito de lutar e quero realizar meu sonho em viver disso. Mas as dificuldades ainda atrapalham”, comenta o jovem, que precisa arcar com o custo das passagens e com a longa distância entre sua casa e a academia.

Moradora do bairro Santa Cruz, Jéssica Kelly, 23, começou cedo nas artes marcias, mas somente agora terá a primeira oportunidade de lutar de verdade. “Estou preparada, a vitória é consequência. Penso em fazer o meu melhor no esporte que tomei gosto”, apontou a estudante de Educação Física, que conta com a ajuda da mãe para pagar as mensalidades da faculdade. “A presença de um patrocínio na vida de um lutador faz muita diferença para ajudar nas despesas de deslocamento, alimentação, treinos e material”, mostrou Jéssica.

Há 14 anos, Lucas Mendonça tem relação direta com as artes. Em viagem para Porto Seguro, descobriu a capoeira e no seu retorno, adotou a luta como hobbie. Boxe, muay thai e jiu jitsu vieram na sequência e no começo desde ano o MMA chegou para cobrir uma lacuna. “A mistura de modalidades é o que mais gosto. Poder aliar o chão com a parte em pé, envolvendo diferentes artes me fez ver o que queria fazer não somente como hobbie, mas como estilo e meio de vida”, contou o empolgado estudante, que deixa de ir a alguns treinos por conta das despesas com passagens. “Minha família resistiu no começo, achava que era muito violento. A aceitação veio depois, quando mostrei empenho e os fiz ver que o esporte tinha regras. Me dedico 100%, teve dia que voltei do treino a pé, da Savassi até o Palmeiras”, lembrou.

Toda e qualquer dificuldade, felizmente, não impede que uma pessoa tenha sucesso dentro de um octógono. “Os projetos sociais estão em vários lugares e isso estimula a formação de atletas de qualidade. Esse perfil vem mudando. O interessante é que, estes jovens, que passam por muitas dificuldades desde cedo, demonstraram uma força de vontade enorme. Eles estão mais acostumados a lidar e passar por barreiras e a luta é apenas mais uma delas”, destaca Titi. “A realidade deles sempre foi dura e isso ajuda muito para que eles queiram correr atrás do sonho cada vez mais”, pontuou o lutador.

As inevitáveis dificuldades que acontecem durante uma luta mal se comparam com o que alguns passam no dia a dia. “A necessidade de alguns alunos é muito maior que a de outras. Eles veem ali um meio de vida, já que passaram por subempregos, saíram do interior e enfrentaram grandes barreiras. A vontade de transformar sua realidade supera a técnica e este espírito aguerrido faz a diferença em muitos momentos”, salientou Ely.

BH entra em jogo 

Titi, hoje, se vê como uma exceção dentro deste novo perfil. Formado em direito e com uma formação diferenciada, ele começou sua carreira usando quimono e fazendo do jiu-jitsu uma forma de praticar esportes. “Fui para o MMA de uma forma muito natural”, comenta. No primeiro grande evento de MMA em Belo Horizonte, Titi fez a principal luta da noite, quando venceu o norte-americano Ricco Washington. Depois de mais duas edições do evento, Belo Horizonte saiu do mapa, muito em função do assassinato de um torcedor atleticano na saída do local em um bairro nobre da capital mineira. “Aquilo foi coisa de torcida de futebol e prejudicou muita a continuidade do evento. O patrocinador, já confirmado para a quarta edição, cancelou o contrato depois de tudo que aconteceu”, lamentou.

Mas no dia 23 de junho, Belo Horizonte pode ter uma excelente oportunidade para voltar, de vez, a colocar seu nome no mapa do esporte que mais cresce no mundo. A edição de núermo 147 do UFC, maior evento do mundo da modalidade, ainda não teve seu local confirmado, mas a capital mineira deve ser a nova casa dos lutadores de alto nível que servem de exemplo e ganham mais fama, dinheiro e reconhecimento a cada ano. Impulsionado pela força do UFC, o esporte atingiu níveis antes nunca pensados, com lutadores fazendo o papel de estrelas, que antes cabia a esportistas de outras vertentes. Titi tenta cavar uma vaga em uma das lutas do Mineirinho. Confirmados, até agora, estão alguns duelos como Vitor Belfort e Vanderlei Silva, os dois treinadores das equipes do reality show. Quem também vai se apresentar são os dois finalistas do programa, que prometem despertar ainda mais a atenção do evento. “Uma das lutas que abrem será entre algum representante da casa. Já mandei meu material para eles e tenho esperança de lugar neste evento”, declarou Titi.

Crescer ainda mais 

Apesar de todo o sucesso que o MMA faz hoje, nunca é demais visualizar algumas situações ainda mais favoráveis que podem acontecer em breve. “Tenho certeza que o número de praticantes continuará crescendo em larga escala”, exemplificou Cristiano Titi, que comemora a boa fase vendo sua agenda de treinamentos cheia, com os interessados aparecem cada vez mais.

Apesar de todo o investimento e lucro que hoje são certos, a valor das bolsas dos grandes campeões ainda fica longe dos gloriosos tempos do boxe. “Lembro de uma luta do Mike Tyson onde ele desembolsou US$ 45 milhões. O Anderson Silva, um dos grandes nomes da atualidade, deve tirar cerca de US$ 4 milhões em suas lutas”, revelou Titi.

Com o número de torneios fervendo, as oportunidades para os futuros campeões não param de crescer. Em uma delas, é provável de algum treinador se encantar com a habilidade de um ou outro talento e tentar fazer dele o próximo Vitor Belfort ou Vanderlei Silva. “Se o cara tiver força de vontade e conseguir uma equipe de qualidade para orientá-lo e prepará-lo, ele terá boas chances de se destacar. O direcionamento de uma carreira hoje é muito mais real do que há cinco ou seis anos”, indicou Titi.

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Vôlei do Praia Clube projeta sucesso na nova temporada

Spencer Lee estará mais uma vez no comando do Praia Clube, que fez boas contratações e ainda manteve nove jogadoras da última temporada (crédito: Alexandre Arruda – CBV)

Mesmo depois conseguir a melhor colocação em toda sua história na Superliga feminina de vôlei, o Banana-Boat Praia Clube mostra almejar voos mais altos na principal competição do país. O sexto lugar na última edição ficou de bom tamanho, mas para a próxima temporada, o clube chega com uma possibilidade real de incomodar ainda mais as adversárias de maior investimento. Provas da força do clube foram algumas contratações já confirmadas pela diretoria do clube e que chegam para fazer a diferença. A ponta Herrera, que foi a maior pontuadora da última Superliga, foi a principal novidade. A cubana, que fez 433 pontos no torneio, era desejada por vários clubes, de dentro e fora do país.

No entanto, a proposta do Praia parece ter sido mais vantajosa para a ponteira, que será a grande estrela de um equilibrado elenco. “Não acho que foi somente a parte financeira que a atraiu. Temos uma bela estrutura de trabalho e uma cidade cada vez mais envolvida com a equipe. Isso conta muito para que ela se sinta em casa”, comentou o técnico Spencer Lee. Para ele, as contratações têm sua importância assim como a manutenção da base. “Nove jogadores permaneceram no elenco. Isso nos ajuda bastante, principalmente na estrutura tática da equipe e também de logística. Nosso time teve um comportamento muito bom na última temporada e a base ajuda na continuidade do projeto”, destacou o treinador, que também está garantida para a temporada 2012/2013.

Alguns dos destaques do clube foram mantidos, como a jovem levantadora Juliana Carrijo, a experiente líbero Arlene, 42, além da ponta Dayse. Além de Herrera, o clube já confirmou as contratações de duas centrais com grande poderio no bloqueio. Letícia Hage atuou pelo Mackenzie-Cia do Terno e fez 261 pontos no campeonato, sendo 99 fechando as portas para as adversárias. Mayhara, que estava no modesto Rio do Sul, mostrou potencial e ganhou uma oportunidade em um clube de maior expressão. A meio-de-rede de 1,85m fez 248 pontos na Superliga, 74 de bloqueio.

“Estamos formando uma equipe mais forte em todos os segmentos. Ganhamos muito poder de definição com a Herrera e também no bloqueio. A Letícia figurou entre as melhores bloqueadoras em todas as rodadas da Superliga. Isso nos dá uma possibilidade real de montarmos um elenco competitivo”, afirmou Spencer Lee. “Com grupo mais forte, com qualidade em todos os fundamentos. Cada uma vai trazer o que tem de melhor. Entraremos na Superliga para brigar de frente com as principais equipes”, comentou a levantadora Camila Torquette. A ponta Michelle Pavão também é uma das novidades. Ela chega motivada, principalmente pelo fato de voltar a jogar com sua irmã gêmea Monique, que já estava no clube na última temporada.

Tudo isso só foi possível devido ao maior investimento do patrocinador, que liberou mais recursos para a temporada que se inicia. “A boa campanha na última temporada colaborou bastante para que o alto nível das contratações, em especial a da Herrera, que é uma jogadora diferenciada. Nosso resultado deu uma injeção de ânimo nos investidores, que mostraram acreditar ainda mais no projeto, que começou antes mesmo da nossa estreia na Superliga. Teremos uma equipe mais competitiva, que terá condições de superar desafios ainda maiores”, projetou Lee.

A expectativa é de figurar entre as principais equipes da Superliga, aumentando as ambições de deixar para trás grandes potências do vôlei feminino brasileiro. “Quem sabe não conseguimos uma vaga inédita na semifinal já neste ano. A ideia é, em médio e longo prazo, buscar um título nacional. Confio muito nisso”, apontou Spencer Lee.

Na última Superliga, o Praia caiu nas quartas de final para o forte Vôlei Futuro, considerado um favorito desde o começo da competição. A decisão só aconteceu no terceiro jogo e as paulistas se classificaram somente depois de muito suor e dedicação. “Fomos bem na última Superliga e por pouco não eliminamos uma grande equipe. Nossa chance, para a próxima temporada, será muito maior”, comemorou Torquette. A apresentação do time amarelo e preto está marcada para a próxima segunda-feira.

Clube quer ser potência olímpica 

Com grande tradição esportiva, o Praia Clube tem no vôlei uma das referências em sua capacidade esportiva. No entanto, o clube mostra ser um formados de talentos e conquistados de bons resultados em outras modalidades. “Além de sermos um dos maiores clubes do Brasil, temos um projeto de trabalho que já começa a colher alguns frutos. Nossa meta é colocar alguns atletas tanto nos Jogos Olímpicos como nos Jogos Paralímpicos”, destacou André Leles, gerente de esportes do clube uberlandense.

No Troféu Maria Lenk de natação, que terminou no último dia 29, o clube do Triângulo Mineiro conseguiu um importante resultado por meio de Roberta Kamila, uma das duas representantes da agremiação na competição que contou com grandes nomes da modalidade. Roberta ficou em terceiro nos 50m borboleta e colocou seu nome na história do clube, que conquistou sua primeira medalha em campeonatos brasileiros absolutos. Além da natação, o Praia mantém equipes profissionais de tênis, futsal e judô.

A estrutura do clube é uma das principais responsáveis pela manutenção de equipes de qualidade, que mostram melhores resultados a cada ano. “Em termos de estrutura, não ficamos a desejar para ninguém, nem para as referências esportivas do Brasil, como Pinheiros e Minas Tênis Clube. O que faltam são os resultados, que não vão demorar para aparecer. Temos um projeto bastante promissor que se solidifica a cada ano”, argumentou Spencer Lee, que ainda destaca o envolvimento da cidade com as equipes profissionais das mais diversas modalidades.

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Mundial de Wakeboard confirmou presença de Nova Lima no mapa do esporte

A hegemonia estrangeira no wakeboard é nítida, mas o Brasil está em franca ascensão (crédito: Carlos Hauck)

O Clube Serra da Moeda, em Nova Lima, que abriga a Lagoa dos Ingleses, já se acostumou a ver alguns malucos levantando voo nos primeiros dias de todo mês de maio. No último final de semana, o local recebeu pela quarta vez, uma etapa do Mundial de Wakeboard, competição que reuniu grandes nomes da modalidade. “O estado de São Paulo possui maior número de praticantes e tem os melhores atletas. Mas em termos de estrutura, Nova Lima é incomparável. Desde 1999 realizamos aqui etapas do circuito brasileiro e neste ano, a primeira etapa do Mundial volta a ser realizada aqui, com méritos”, destacou Mário Manzoli, o Marito, competidor e presidente da Associação Brasileira de Wakeboard (ABW).

Brasileiros e gringos não se cansam de elogiar o local, principalmente pelas condições, com a água sempre lisa, do jeito que os praticantes gostam. Comparado ao futebol, a Lagoa do Ingleses seria um verdadeiro tapete. “Há algum tempo escuto meus amigos falarem muito bem daqui. Não podia perder essa oportunidade. O clima também ajuda muito. Vou em busca de um bom resultado, mesmo sabendo do alto nível técnico da competição”, comentou o canadense Aaron Rathy, uma das atrações que já estão em Nova Lima. Ao lado dele, outros nomes de grande nível internacional estiveram presentes, a exemplo do compatriota Dean Smith, do norte-americano Phil Soven e do atual campeão mundial Harley Clifford, da Austrália. Soven acabou se sagrando o campeão da etapa inicial. Estados Unidos e Canadá receberão as etapas seguintes.

Os maiores nomes do wakeboard mundial são estrangeiros. Estados Unidos, Canadá e Austrália são as grandes potências e os motivos que justificam tal posição são vários. “Eles possuem uma cultura diferenciada quando o assunto são esportes aquáticos. Por lá, acontecem mais campeonatos e os incentivos aparecem desde muito cedo, facilitando a formação de jovens talentos. O poderio econômico também contribui. Fica mais fácil comprar todos os materiais e equipamentos, que não são baratos”, relatou Marito. Ele ainda comenta que, fora do país, qualquer pessoa de classe média, consegue iniciar e se desenvolver no esporte, enquanto no Brasil, uma pequena parte da população reuniria tais condições.

Mesmo com a hegemonia gringa, o Brasil dá as caras por meio de um nome já conhecido dos amantes do wake. Trata-se de Marcelo Giardi ´Marreco´, seis vezes campeão brasileiro e ouro no Pan-Americano do Rio em 2007. Há duas semanas, pelo circuito paulista, ele bateu na final Andrew Adkison, referência do esporte. “Vivo meu melhor momento na carreira. Minha cabeça agora está somente na minha evolução, ao contrário dos anos anteriores. Estou mais experiente e fazendo voltas bastante consistentes”, comemorou Marreco.

Convidado para as duas últimas edições da Copa do Mundo, ele paga o preço pelos intensos treinamentos que acontecem desde 20 de dezembro. “Nunca estive tão focado como agora. As chances de uma vaga na semifinal são reais, mas penso em evoluir de bateria para bateria. Estou muito motivado e se eu acertar todas as manobras, como vem acontecendo nos treinos, vou colocar muita pressão sobre os estrangeiros”, revelou. Nas etapas anteriores, o Brasil parou nas quartas de final e a maior aposta para uma melhor colocação está nos voos de Marreco. “Consegui fazer um BS 720 no Circuito Paulista, uma manobra inédita aqui no Brasil. Vou deixar para usá-la mais para o final, se precisar”, admitiu Marreco.

Marreco tem boas chances de competir nas outras etapas. “Ainda não está certo. Graças a Deus, tenho um patrocinador e é bem provável que eu esteja presente nas próximas oportunidades dentro do Mundial”, relatou.

Tarefa dupla

Até o ano passado, a Lagoa dos Ingleses recebia tanto o Mundial como uma etapa do Brasileiro. As atenções de público, imprensa e competidores, acabava ficando divida. Na edição deste ano, uma importante mudança, tendo somente o Mundial como atração principal. “Eu, particularmente, me sentia incomodado. Tinha que organizar a competição nacional e pensar em ir bem no Mundial. A concentração era outra. Agora, será bem melhor. Terei mais tempo para me preparar e descansar, tendo a possibilidade de um maior rendimento”, comentou Marito, que divide as funções de atleta e presidente da ABW.

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Armador do Minas faz a diferença fora de quadra

Mark Borders mostra qualidade dentro de quadra e preocupação com futuro da família do lado de fora (crédito: Emanuel Pinheiro)

Quem vê a habilidade do norte-americano Mark Borders, 29, armador do time de basquete do Minas Tênis Clube, nem imagina na história de vida que se passa quando ele deixa as quadras e volta pra casa. Morando no Brasil há três anos, depois de passagens pelo basquete de Turquia, México, República Dominicana e Venezuela, ele reside na capital mineira desde agosto e finalmente encontrou um local que lhe dê uma estrutura e que lhe deixe pensar somente em fazer o seu melhor a favor da equipe comandada pelo técnico Raul Togni.

Nascido em Bartow, no estado da Flórida (EUA), Mark cresceu vendo uma realidade difícil, influenciada pelo local onde morava, uma espécie de favela gringa. Tráfico, armas e um gosto especial pelo basquete eram constantes no dia a dia de vários moradores. Uma realidade comum para muitos brasileiros, mas que também dá as caras em várias áreas de países mais desenvolvidos, que não recebem a devida assistência. “Alguns dos meus tios eram traficantes, mas sempre me falaram para estudar e tentar dar meu máximo para ser um jogador de basquete. Depois que eles tiveram filhos, mudaram de vida”, comenta Mark, que sabe que a infância é um período decisivo para muitos que estão envolvidos em um cotidiano longe do ideal.

Pensando nisso, Mark trouxe para Belo Horizonte o sobrinho Jamie, de apenas 15 anos, nascido quando a mãe tinha apenas 16. “As influências no lugar em que ele vive não costumam ser boas. Tem muita gente em volta querendo te levar para um outro caminho e essa é uma idade de uma decisão importante na vida, que pode decidir o futuro. Se ele ficasse lá e desandasse, me sentiria culpado. Ele adorou a cidade e vivenciar uma outra realidade tem sido muito positivo para ele, que está amadurecendo aos poucos”, comenta Mark.

O garoto tem mais três irmãos e pais separados. A mãe dá duro para dar o melhor para os filhos, mas a ajuda do irmão foi fundamental. “Fico muito feliz e orgulhoso quando volto para casa e vejo como sou um exemplo para as crianças da minha família. Os olhos deles brilham quando me veem e conversam comigo. Sempre tenho passar mensagens de motivação para eles, deixando claro que é preciso dar muito duro para que nossos sonhos virem realidade. Mas para isso, a vontade deles precisa ser maior do que a minha”, destaca.

Mark fez questão de ter a companhia do sobrinho em vários momentos na capital mineira para que ele visse de perto como é a rotina. “O mesmo aconteceu quando fiz o curso de Ciências Exatas, na Faculdade de Tampa. Levei ele para ficar comigo cerca de uma semana e creio que ele aprendeu muito nesta oportunidade”, lembra. O jogador se orgulha de ter sido o primeiro homem da família a conseguir vaga em uma faculdade. “Nos EUA, é muito difícil e caro fazer uma gradução. Devo tudo que tenho ao basquete, foi por ele que eu consegui uma bolsa de estudos para estudar e viver um dos melhores períodos de minha vida”, analisa.

Em agosto, Jamie deve voltar à Belo Horizonte. Atualmente, ele vive nos EUA onde tentar conseguir por definitivo o passaporte para morar no Brasil. “Adoro jogar pelo Minas. Não vejo a hora de volta para Belo Horizonte”, admite o jovem. Devon, seu primo de 11 anos, também deve embarcar em Confins ao seu lado. Atuando pelo sub-15 do Minas, o garoto já mostrou potencial e qualidade para se desenvolver no esporte. “Ele realmente é muito talentoso. Mas sempre deixo claro para ele e para os primos a importância de tirar boas nota e de estudar, principalmente depois que a carreira chegar ao fim. Também reforço valores como o respeito aos pais, a importância de Deus e de fazer por onde para chegarmos onde queremos”, comenta Mark.

Com o tio, as cobranças também acontecem, mas de uma maneira diferente da que acontece hoje com a mãe por perto. “Não sou um tio chato, daqueles que ficam no pé o tempo todo. Apenas o alerto sobre o que deve ser feito e sobre as consequências de nossas ações. Parece que ele me escuta de um jeito diferente”, comemora o tio. “Ele é um modelo para mim, em todos os sentimento. Ele faz o papel de pai e professor, me ensina a ser um homem, além de muitas outras coisas que contribuem no meu amadurecimento. Quando estive em BH, vi que era preciso treinador forte para concretizar meu sonho”, comenta Jamie.

Em períodos turbulentos, a irmã reclamava muito das atitudes do sobrinho para Mark. “Tudo que entrava em um ouvido, saía pelo outro. De um tempo para cá, ele melhorou, principalmente quando ameçava que me contaria sobre o que ele fazia de errado”, lembra. Quando ficou suspenso das aulas por brigar na escola, Jamie teve uma lição: ficou em casa durante todo o período cuidado do irmão de poucos meses de idade.

No futuro, ao lado da família, Mark planeja criar uma empresa de assessoria esportiva para acompanhar e orientar jovens promessas no começo de carreira. “Muitas vezes, somos influenciados por pessoas de má índole, que nos atrapalhavam ao invés de ajudar, que só pensam no benefício próprio, deixando de lado o atleta que deveria ser o maior beneficado”, alerta.

Já falando bem o português, o atleta cobra do parente criado como filho que ele também se empenhe para tentar falar bem a língua, o que pode lhe ajudar bastante no colégio que estuda em Belo Horizonte.

Na ausência do sobrinho, Mark se vira como pode para matar a saudade e o tempo longe do pequeno fã. “A gente se divertia muito por aqui, com filmes e video game. Realmente sinto falta dele. Quando ele está por aqui, a saudade da minha família fica bem menor”, lamenta. Mas em breve os velhos e não tão distantes tempos voltarão acompanhados de mais um integrante, que também adora o esporte e pode integrar o sub-12 do clube mineiro.

Antes rebelde, agora exemplar

Quando tinha pouco mais de 10 anos, Mark tinha um comportamento rebelde, deixando os pais preocupados com o que viria em sua vida. “Também já tive a idade de meus sobrinhos e sei como é essa fase da vida. Mas quero dar a eles o melhor e procuro passar o melhor exemplo para todos”, comenta.

Em muitas vezes, o jovem Mark chegava em casa após as 23h sem dar satisfação da onde estava e o que fez. O sobrinho acabou dando dores de cabeça para o tio, mas por um bom motivo. “Ele ficou fora de casa o dia todo mas depois me contou que havia passado várias jogando jogando basquete e treinando, inclusive sozinho”, admite o jogador, vendo que algum resultado já acontece graças ao seu bom exemplo do tio, que motiva o sobrinho a se esforçar para conseguir destaque na vida e carreira. “Costumo comentar com ele que é possivel sim eles serem muito melhores do que eu, mas que para isso é preciso dedicação, empenho”, sinaliza.

O sonho da NBA era grande para Mark, que acabou abrindo mão de sua maior vontade em prol da família. “O nível lá é muito alto, diferente de outros lugares que já joguei. Mas isso não quer dizer que aqui no Brasil, por exemplo, qualquer um consegue vaga em um time. É preciso ter talento e fazer por onde cravar sua vaga. Mas nos EUA, eu poderia demorar muito a conseguir uma vaga no lugar que eu desejava. Lá o um contra um é muito importante e demorei a desenvolver essa habilidade”, destaca. No país do Tio Sam, Mark chegou a treinar junto com o elenco de Indiana Pacers e Houston Rockets.

Nos dois primeiros anos no nosso país, o norte-americano representou as equipes de Assis e Araraquara, equipe que foram úteis para sua adaptação, mas que contavam com uma estrutura inferior a do Minas. “Recebi informações de outros americanos que
jogaram aqui que eu gostaria muito do que viria. E não deu outra, o Minas realmente nos dá todas as condições e assim, ficamos preocupados somente em fazer o nosso melhor dentro de quadra. Isso é o mais importante para um jogador profissional”, resume.

Determinação

No início da carreira, depois de se formar, Mark passou por alguns períodos de hiato, sem clube e sem muita certeza do futuro. Mesmo sem uma definição, Mark fazia questão de acordar as 6h da manhã para treinar sozinho e com alguns companheiros, além de fazer academia na parte da tarde. “O Jamie ia comigo para a gente bater bola junto, antes de eu deixá-lo na escola por volta das 9h. Isso foi importante para ele ver como eu dava duro, mesmo em um tempo em que eu não tinha garantias”, comenta.

Em BH, Mark costuma estar acompanhados dos jogadores de time para prestigiar outras equipes do Minas, como de futsal e vôlei. “O nosso grupo é muito bom, apesar de contar com vários jovens. Em pouco tempo, iremos dar muito trabalho para equipes
mais fortes, tenho certeza disso”, comentou, mesmo não sabendo qual será o seu futuro. Depois do NBB, seu contrato se encerra mas a vontade é de permanecer, até para que o sobrinho crie raízes com a cidade e se identifique com o que já foi visto.

Cinema e compras são dois dos passatempos preferidos do norte-americano. “Adoro fazer compras, principalmente tênis. Acho que tenho um problema sério, pois compro muitos pares, sou um aficcionado”, admite.

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Líder da seleção feminina de vôlei comemora momento e ainda não se preocupa com o futuro

Fabiana não perde oportunidade de estar com a família, mesmo em períodos de treino (crédito: Erwin Oliveira)

A humildade e dedicação de Fabiana Claudino a fizeram sair da pequena Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte, para o mundo. A central da seleção brasileira de vôlei surgiu no Minas Tênis Clube com apenas 14 anos e 13 temporadas depois ela vive um dos melhores momentos da carreira, comemorando a realização do sonho de jogar fora do país. “Graças a Deus deu tudo certo na Turquia. A experiência foi espetacular, tanto dentro como fora de quadra. Aproveitei muito cada momento e não tenho nada a reclamar, pelo contrário. Só aconteceram coisas boas e agradeço por tudo que passei”, revelou a mineira, que esteve ao lado de José Roberto Guimarães no Fenerbahce. Por lá, a dupla saiu satisfeita depois de vencer, pela primeira vez na história do clube, a Champions League, principal competição de clubes do Velho Mundo.

Depois de atuar pelo Vôlei Futuro (SP) na temporada anterior a que acaba de terminar, Fabiana decidiu que era a hora de atuar em um clube estrangeiro. “Eu precisava desse tempo fora. Consegui colocar minha cabeça no lugar, ter um tempo mais para mim. Saí daqui um pouco abaixo fisicamente, mas consegui recuperar minha forma, mesmo ficando fora de alguns jogos”, comentou. A central foi mais utilizada na competição europeia, uma vez que o campeonato nacional poderia ter apenas duas jogadoras estrangeiras. No elenco, o time turco contava ainda com nomes de destaque internacional como o norte-americana Logan Tom, a russa Sokolova e a sul-coreana Kim. Um revezamento acabou sendo obrigatório durante a competição local, que conta com quatro equipes de força, enquanto o restante atua como meros coadjuvantes.

A adaptação em um país de língua, clima e cultura diferente não foi fácil, mas ajudas inesperadas foram mais que benéficas. “A Logan Tom fala português e sempre que precisei ela me ajudou, tendo um papel muito importante. O José Roberto também virou mais que um treinador. Só o conhecia dentro da seleção e no clube, tivemos oportunidade de sair juntos e aproximar a relação. A esposa dele conhecia bem Istambul e me levou para vários passeios que ajudaram o tempo a passar mais rápido”, lembrou.

Quando olha para trás, Fabiana mal acredita na evolução de sua carreira e na vida pessoal. “Imaginar que saí daqui de Santa Luzia e que hoje conheço vários lugares do mundo e pessoas de grande importância me faz muito feliz. O que mais vale disso tudo são as amizades criadas. Títulos muita gente tem, mas relações verdadeiras, que resistem ao tempo, são raras. Quando minha carreira acabar, terei lembranças de todos, que guardo no coração com muito carinho”, disse.

O apoio da família foi fundamental para que sua decisão fosse entendida e respeitada. “Meus pais sempre me apoiaram desde o começo. Sei que a distância foi difícil para eles, assim como foi para mim. Amo meu trabalho e eles compreendem isso. Apenas tento retribuir o carinho deles da melhor forma possível”, garantiu. Prova disso é o bate-volta que Fabiana faz sempre que pode. Atualmente ela treina com a seleção brasileira em Saquarema (RJ) e em qualquer tempo livre, Santa Luzia é o destino certo. “Faço questão de estar com eles nestas horas de folga”, comentou.

Já são duas semanas de treinamento, se preparando para o Sul-Americano, que acontece entre os dias 9 e 13 de maio, em São Carlos (SP). Nos finais de semana de folga, Fabiana não pensa duas vezes antes de vir correndo para a cidade onde foi criada. “Lembro bem das dificuldades de quando ela começou, indo e voltando para os treinos no Minas de ônibus. Sempre confiamos muito no potencial dela, mesmo sem a garantia de que um dia ela se tornasse uma profissional de sucesso”, comentou o pai, seu Vital.

Mesmo passando por uma fase de glórias, sendo requisitada por vários clubes e se firmando como titular e capitã da seleção brasileira, Fabiana acredita que o auge ainda não chegou. “Vivo um bom momento, mas não me considero no topo do que posso alcançar e fazer. Quero crescer ainda mais, isso é o que eu mais busco”, destacou.

Foco na seleção

Feliz da vida com o nível de destaque que sua carreira atingiu, Fabiana garante não estar muito preocupada com o futuro. “Quero focar na seleção. Sabemos da importância do Sul-Americano e estamos pensando também nas Olimpíadas, competição onde não se pode vacilar, mesmo com algumas equipes indo somente para participar. Não podemos entrar relaxadas, a concentração tem que ser total, cada jogo temos que entrar para definir”, indica a central, próxima de sua terceira participação no principal torneio da modalidade. Na última edição, medalha de ouro e nome na história do vôlei nacional.

Fabiana afirma que a intensidade dos treinos estão sendo úteis para todos. “As meninas estão dando seu máximo, já que são apenas 12 vagas. Uma exige bastante da outra e quem ganha com isso é o grupo, que fica cada vez mais forte”, relata.

Inevitavelmente, propostas não param de aparecer. Sesi-SP, Campinas e Unilever já formalizaram o interesse na jogadora, que tem ainda nas mãos a possibilidade de continuar jogando fora do país, dando continuidade ao processo de amadurecimento e evolução que a Turquia lhe proporcionou. “Se for para falar com o coração de mãe, quero que ela fique. Mas sei da importância de atuar fora do país e nas coisas boas que isso traz. A decisão é dela e estaremos sempre apoiando o que ela achar melhor”, afirmou a mãe Maria do Carmo.

“Ainda não me decidi. Tenho tempo para pensar e fazer a melhor escolha, não tenho pressa. O projeto do Sesi é bacana e me interessa. Mas prefiro pensar somente na seleção por agora”, admitiu.

Amiga e empresária

Além da família, Fabiana teve um importante apoio fora de quadra. A empresária Ana Flávia, ex-jogadora do Minas Tênis Clube e também da seleção brasileira, também faz o papel de amiga. “Converso com ela todos os dias. Mais que minha agente, ela é minha amiga, conselheira, tudo. Quando viajei para a Turquia, ela foi comigo para dar uma força. Sempre que preciso, conta com ela, que me ajuda bastante, em tudo que preciso”, revela Fabiana.

A presença de Ana Flávia na vida de Fabiana apareceu logo cedo nas categorias de base do Minas. “Não tinha ninguém, além dos meus pais, que pudesse dar um auxílio diferenciado na carreira. A Ana apareceu e tem sido peça importante na minha carreira. Tenho muito gratidão por ela”, elogia a jogadora.

Líder nata 

Fabiana é capitã da seleção desde 2010. A escolha se deu depois de uma decisão do técnico José Roberto Guimarães. O treinador optou por uma eleição entre as jogadoras. Das 14 atletas do elenco, 13 votaram em Fabiana, que garante gostar da função. “Não sou daquelas de ficar gritando, mas sei que tenho uma liderança. Quando paro para conversar e chamar atenção, sei que elas escutam. Sempre fui muito comunicativa, isso ajudou bastante”, aponta.

Família de gigantes

Fabiana foi privilegiada também no DNA. Filha de pais com estatura privilegiada, ela também acabou se destacando pela altura. “Quando cheguei no Minas, nem precisei fazer o teste. Fui direto para a equipe. Tinha 14 anos e 1,85m”, lembra Fabiana. O irmão, ex-jogador profissional de basquete, atualmente mora nos EUA, onde trabalha como professor. Os 2,04m confirmam a fama de gigantes do quarteto.

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Perfil de treinadores de vôlei varia, mas o que vale mesmo é o resultado

Perfeccionista, Bernardinho admite dificuldade para se controlar em alguns momentos (crédito: João Pires - Vipcomm)

Em qualquer modalidade esportiva, a presença de um treinador capacitado é fundamental. Ter ao lado uma pessoa experiente, com boa vivência na modalidade, que saiba os atalhos para se chegar aos desejados caminhos das vitórias é sempre benéfico e bem-vindo. O perfil desse comandante também pode influenciar diretamente nos resultados. Enquanto alguns são mais calmos, outros já se mostram mais enérgicos, tudo fruto de uma personalidade própria. “Independentemente de como seja esse treinador, o que vai valer, de verdade, são os resultados conquistados”, resume Bernardinho, técnico com uma carreira pra lá de vitoriosa no vôlei nacional, a frente da seleção masculina e feminina e atualmente do Unilever, equipe que fez as últimas sete finais de Superliga.

Conhecido por ser explosivo na beira de quadra, Bernardinho acredita que, assim como os comandados, os treinadores também tem um perfil próprio, difícil de ser definido ou moldado. “Cada um tem sua própria personalidade. Eu realmente sou mais agitado, isso vem desde os tempos de jogador. Outros treinadores de grande competência são mais serenos, cada um do seu jeito. O mais importante é ser transparente e conseguir passar confiança para quem está sob seu comando”, comenta.

Para as jogadoras que tiveram ou tem a oportunidade de trabalhar com um treinador como Bernardinho, uma adaptção ao seu estilo é fundamental. No começo, principalmente, muitas se assustam, mas com o tempo fica claro que todas as broncas acontecem em prol da equipe e que a atitude é a mesma com todas as comandadas. “Realmente tem muita jogadora que no começo sente bastante essa pressão. Quem não está acostumada demora a se adaptar, mas depois fica claro que esse é o jeito dele. Os gritos são a forma dele motivar e orientar a equipe”, comenta a ponta Suelle, comandada por Bernardinho na temporada passada no clube do Rio de Janeiro. Hoje ela defende o Banana-Boat-Praia Clube, de Uberlândia, que tem como treinador o calmo Spencer Lee. “Ele é totalmente o oposto. Depois de me acostumar com o Bernardo, demorei também para entender o estilo do Spencer. Ele nunca grita e isso passa muita tranquilidade para as jogadores, principalmente em momentos ruins da partida. Mesmo estando mal no jogo, sabemos que ele vai tentar nos ajudar de uma maneira mais serena”, declara o jogadora.

Suelle lembra que no começo do trabalho com Spencer Lee, ela mesmo o deixava livre para aumentar o tom de voz com o elenco, como forma de motivação. “No fim, percebi que isso não tem como mudar. Nem se ele quisesse gritar, ele conseguiria”, brinca a atleta.

Os vários títulos na carreira de Bernardinho tem grande influência pelo alto nível exigido de suas atletas durante todos os momentos de uma partida. No currículo do treinador, estão o ouro olímpico com a seleção masculina nas Olimpíadas de Atenas (2004), bronze com a feminina em Sidney (2000), além de oito títulos da Liga Mundial. “Não sei se essa minha característica tem grande peso nos resultados. Acredito que isso pode até ter atrapalhado em alguns momentos. Mas os resultados são o que mais contam. Se eu não tivesse tido tantas vitórias, com certeza falariam que sou desequilibrado e que meu jeito atrapalha, assim como se fosse um treinador mais calmo, falariam que sua tranquilidade excessiva não passa motivação suficiente”, detalha. O silêncio e o ar sem graça de muitas jogadores já se tornaram constantes durante os pedidos de tempo e a constante insatisfação mostrada pelo também marido de Fernanda Venturini.

Com experiência a frente de equipes masculinas e femininas, Bernardinho admite que a postura deve ser distinta, apesar da dificuldade de manter tal atitude com homens e mulheres. “Devem sim haver distinções, mas muitas vezes não consigo diferenciar esse tratamento. Mas, com certeza, no feminino, o cuidado deve ser maior”, analisa. O técnico ainda sabe que muitas jogadoras precisam se adaptar ao seu estilo, bastante incomum se comparado com os outros treinadores da elite nacional. “Cada pessoa é de um jeito, algumas se adaptam com mais facilidade, outras com menos. Mas sempre tento identificar as características de cada uma para saber a forma exata de lidar e evitar, ao máximo, que isso atrapalhe o desempenho”, justifica.

Perfeccionista ao extremo, ele garante que esse perfil é mantido em todas as esferas de sua vida, tanto como treinador quanto como pai e marido. No entanto, na parte social, Bernardinho afirma que o estilo é outro, bem diferente daquele ao qual o público brasileiro se acostumou a vê-lo. A motivação do treinador está mantida e não tem prazo para acabar. Enquanto houver voz e energia para puxar a orelha de suas comandadas e conquistar mais um sem-número de títulos, Bernardinho estará presente na beira da quadra, para alegria e desespero de muitas jogadores, inclusive para aquelas que estão do mesmo lado da quadra.

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Dinastia toma conta de várias modalidades no Brasil

Coaracy Nunes justifica seu longo mandato devido aos bons resultados dos esportes aquáticos brasileiros (crédito: Alex de Jesus)

O pedido de afastamento de Ricardo Teixeira da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na última segunda-feira foi comemorada por muitos, que esperavam ansiosamente pela saída do presidente, que ficou a frente da entidade por longos 23 anos. O afastamento do sr. Teixeira foi justificado por problemas de saúde, mas a pressão que ele vinha sofrendo para deixar o comando da entidade era enorme, principalmente em virtude das denúncias de corrupção, lavagem de dinheiros e tantas outras falcatruas. Todas as conquistas e títulos da seleção brasileira de futebol nas mais de duas décadas não foram suficientes para a aclamação do dirigente, que foi bastante contestado em vários momentos por um comportamento distante do que é considerado o ideal.

Assim como no futebol, outros esportes também vivem um período de longa dinastia nas mãos de uma única figura. No entanto, as outras modalidades não costumam virar notícia por conta do comportamento duvidoso de seus comandantes e sim pelas conquistas ao redor do mundo. “Deixando toda a modéstia de lado, a natação no Brasil praticamente não existia quando assumi a conferação em 1988. Os resultados neste período justificam, plenamente, a minha permanência. Tenho total apoio de todas as 27 federações”, justificou Coaracy Nunes Filho, presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) há 24 anos.

Ter durante tanto tempo uma única figura comandando um esporte de grande importância no país pode ser questionado em virtude da concentração de poder e da rara possibilidade de um outro dirigente assumir o posto e dar um novo ânimo para a entidade. Tal situação é recorrente em várias modalidades, que veem o lugar mais alto da entidade ser ocupado pela mesma pessoa há mais de uma década. Lados bons e ruins fazem parte desta situação. “Os maiores benefícios decorrem da experiência que o dirigente adquire e de sua habilidade em utilizá-la em favor dos objetivos da instituição. Não se forma um bom gestor em pouco tempo. Basta verificar a longevidade de diversos Presidentes de Entidades esportivas internacionais. O maior mal é deixar-se levar pela acomodação, sem a percepção de que a administração tem de ser dinâmica e estar sempre atenta às constantes mudanças de rumo que vão se fazendo necessárias”, analisou Roberto Gesta de Melo, que ficou a frente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) por 24 anos. Neste ano, ele deu lugar a José Antônio Martins.

Levantamento feito no ano passado pelo jornal ‘O Estado de São Paulo’ apontou que dos 30 mandatários de confederações esportivas no Brasil, 27 estão no cargo há mais de 10 anos. “Em nenhum momento tive concorrente ao cargo, justamente pelo bom trabalho prestado. Assumi um compromisso com o Carlos Nuzman (presidente do COB) de deixar o comando após a Olimpíada de 2016. Infelizmente, uma hora a idade chega e é preciso passar o bastão. Espero que as federações escolhem bem meu substituto”, destacou o dirigente, que admite ser a favor de uma troca somente quando o comandante se mostra incapaz ou desonesto mesmo tendo em suas mãos uma boa oportunidade de melhor o nível e o nome da modalidade brasileira no quadro internacional. “Minha consciência está muito tranquila com tudo que fiz até aqui. Não reconhecer o avanço dos esportes aquáticos brasileiros é uma ignorância. Trata-se de um trabalho eficiente não somente meu, mas de uma equipe de cerca de 40 pessoas”, argumentou.

A substituição dos cargos é constantemente debatida e sempre leva-se em conta os resultados e a qualidade do trabalho. Se benefícios estão sobressaindo diante dos fatores negativos e a modalidade ganha ascensão com o passar dos anos, a discussão se limita à oportunidade para outras pessoas, que entrariam com o compromisso de manter a evolução. “O embate das ideias é fundamental. Se existem pessoas mais qualificadas para exercer a função de dirigente que elas se apresentem. As mudanças são inevitáveis e irão refletir as tendências dos novos dirigentes. No entanto, as conquistas do passado devem ser avaliadas e, se possível mantidas, com os naturais ajustes que a passagem do tempo passa a exigir”, declarou Gesta.

Coincidência ou não, a situação se repete no campo da política, outra área bastante presente no cotidiano brasileiro e que ganha bom espaço na mídia diariamente. Apesar do esporte não ter o poder de modificar a realidade nacional como acontece com a política, os dois setores mostram a presença de membros que ocupam cargos durante anos seguidos.

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